terça-feira, 18 de dezembro de 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

madrugada camponesa

madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
a noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.
não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia-a-dia
feita de canto e de pão.
breve há de ser
(sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
vai ser tempo de ceifar.
já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.
já é quase tempo de amor.
colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão.
madrugada camponesa.
faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
faz escuro mas eu canto;
porque a manhã vai chegar.

thiago de mello, em "faz escuro mas eu canto".

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

poema feito de frente para o mar

olha, meu bem, que todo repouso é pouso
de voar alheio à tanto mar e tanto amar.
um novo verão sempre há no sul
e a felicidade ainda é plena de azul.

essa saudade é mesmo coisa da idade
vê que o vivido há até de ser sorriso.
quando o futuro urge e nos dirige o leme.
vem, assenta a alma a bordo e reme.

quanto desconcerto para coisas comuns,
se coisa feliz mesmo é que a gente se desacerte.
deixa, que pra nascer de novo é preciso morrer,
e se for pra morrer, seja lá quantas vezes for,
sentir a vida não deve ser dúvida,
vamos todos morrer de amor.

t.s.siqueira

vadiagem pra manoel

uma mosca pousou no meu dedo
despiu-se do céu e provou de mim.
fez sua análise.
descruzou as pernas ao deformar o tempo.
e zombou:
disse de gigantes sem asas e moinhos sem ventos.
que homem que é homem não nasce pra voar.
mas avoa.
jeito de bicho é sereno.
pois gente feliz é bicho do mato.

t.s.siqueira

terça-feira, 20 de novembro de 2012

hurts

esse nó na minha garganta é que me sufoca.
me estranho, me arranho, me expulso.
repulso.
é que cura não existe.
o mundo não escolhe hora pra explodir
e eu já não posso escolher ficar.
a alma na armadura não é assim tão dura.
mágoas não se apagam com afagos.
há homens menores que suas sombras
e verdades adormecidas não são tão inofensivas.
para toda migalha de paixão
são três fatias de nostalgia, um copo de ácido e um prato cheio de memórias.
é esse mutismo que não há quem compreenda,
essas frases perdidas em páginas coladas
onde não há quem possa ler o que o óbvio esconde.
um pedido de ajuda com uma lâmina atravessada na boca.
um punhal rasgando a língua, uma liberdade violentada e essa metralhadora de clichês.
sou essa nota de rodapé na verborragia de dias de glória.
minha soturna felicidade de margem
meu pé de infinitude na beira
meu rio onde a vida se descasca devagar
com a crueldade de um nó nas cordas em volta do pescoço.
ninguém me disse que seria tão difícil.

t.s.siqueira


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

setenta e sete

somos todos devedores. viver é um empréstimo e pagar é constância reveladora do inalterável egoísmo que sacrifica e salva a espécie. nos é cobrado com a carne podre que se desintegra aos poucos. e lá no fim, quando desgastado o limiar dos olhos, quando prestes a apagar o candeeiro que ilumina aquela parcela de mundo que nós conhecemos, vender a alma ao diabo já não parece uma proposta tão aterrorizante. "somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro". nêmesis é implacável e a morte é sua imediata companheira. riem-se da finitude e da falta de fins ou funções que determinem os porquês dos homens. nos faltam selas para subir em um cavalo e partir sem rumo em fuga do destino. mentira. o que nos falta é coragem! vivemos para morrer? propósito há nessa fila de animais enfileirados nos abatedouros? pagamos promessas. cruzes que muitas vezes nos esmagam na vida cadeira de escritório, gravata apertada e esposa modelo. pagamos pecados. mais que sete. talvez setenta vezes sete. talvez pecar seja o sentido da vida. somos corroídos pelo pecado e o resto que nos sobrar é devolvido a quem nos pagar mais caro no leilão post-mortem. seja deus, o diabo ou os vermes da terra. talvez seja tudo uma viagem no elevador. simples, direta, fácil. esperamos que seja sempre assim. da maneira mais tediosa e segura possível. mas para nossa aflição, vez ou outra há desvios de percurso. uma porta que se abre antes. pessoas que entram sem pedir licença. um acidente que nos prende em algum lugar, e por mais que no fim, a gente saiba onde chegar, com a certeza de que se irá chegar, as perspectivas não se completam e o controle sobre nossa dívida se perde em números insuficientes. se um dia tivéssemos real dimensão do que nos espera, a consciência onisciente nos faria genuínos guardiões da melancolia. incertezas engarrafadas vendem muito, mas mil interrogações não valem uma exclamação no mercado de felicidade. aí é que a ilusão do amor combate este cinza singelo que deveria nos pincelar. a ilusão de uma tratativa que sara as cicatrizes da memória. a idéia de se perder entre os iguais amortece e afasta a realidade. entregar a alma ainda é a alternativa que se impõe. doar o viver, se doar, ir além da dor. cada palavra inexprimível cabe em seu exato preço na pedagogia do amor. cada dizer corresponde à maquinação perfeita que ergue a cortina que nos esconde de nós mesmos. o amor é a desesperada tentativa de sobrevivência. a razão última que precede a loucura. o resto é a resistência esporádica das ilusões. a amargura é lei, a desobediência vital, a felicidade é clandestina e a redenção, quase sempre, intangível. porque aqui não se vive, doutor, mas ainda se tenta.

t.s.siqueira

terça-feira, 11 de setembro de 2012

setting fire to the rain

Acreditou piamente em tudo que ouvira. Era de sua natureza: assentir e acreditar. Como se fosse um mote que lhe facilitasse o viver quotidiano. Sempre à espera de dias melhores, gente melhor, sorrisos mais sinceros. O destino se encarregaria de tudo. Era o seu ofício.
Contudo, os caminhos não são nunca retilíneos segmentos. Nas curvas e desvios, nos atalhos desse desdestino só há o escarnecer, a gastura e a ferida. O acaso empurra todos ao abismo da drasticidade e revela os homens que caminham cegos sem consciência do que lhe guarda no amanhã.
Foi quando lhe explicaram que a esperança é uma velha sandia que fabulava ilusões nos parapeitos das janelas enquanto a morte tinha preguiça de seguir em seu encalço.
Entre Belchiors e Beauvoirs, optou então por uma cínica filosofia.
Naquela manhã não foi trabalhar. Fez a barba e quando um filete de sangue escorreu no canto da boca, provou vigorosamente o sabor metálico. Desenferrujava as engrenagens e desparafusava as ideologias. Cansara de ser máquina do sempre. A severa rota enfim cedia aos caminhos dos desvios.
O casal de velhos lá de baixo brigava e xingava mais uma vez. A ninfa promíscua do apartamento de cima não segurava seus orgasmos e gemia despudoradamente. O vizinho do lado ouvia Verdi no máximo volume para calar as verdades. "Que vida extraordinária!". E esboçava um sorriso sardônico de um prazer descoberto na sujeira. O Dies Irae entoado nas paredes não poderia ser mais perfeito.
Pôs-se a caminhar entre as ruas da cidade. Era apenas mais um. Apenas mais um rosto.
Mas dentro de si suas entranhas queimavam. A alma em combustão. Naquele dia decidira abandonar a orquestra da certeza e da harmonia. Destronar o bom moço e arrancar-lhe os troféus. Vivia a erupção que lhe arrasara a espinha. Mandou à danação as liberdades românticas, as burrices desinteressadas e as exclamações amistosas.
Resolveu que talvez devesse compor também um hino de fúria. Com a fúria e o fogo que o consumia cuidaria de carregar tudo à desordem, ao desassossego e à disritmia.
O fogo que tudo purifica, em seu solene silêncio, haveria de consumir o mundo.

T.S.Siqueira

era uma vez um homem e o seu tempo

cada um guarda mais o seu segredo. seu peito deserto. sua mão parada, lacrada e selada, molhada de medo. eu tenho medo salvador, bahia. eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão. eu sou pessoa.

apenas um rapaz latino-americano. muito cansado de não poder falar palavra sobre essas coisas sem jeito que eu trago em meu peito. os pés cansados e feridos de andar légua tirana e lágrima nos olhos de ler o pessoa e ver o verde da cana. eu sinto tudo na ferida viva do meu coração.

sonho e escrevo em letras grandes, de novo, pelos muros do país. ano passado eu morri, mas esse ano
eu não morro. no presente a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais.

marginal bem sucedido e amante da anarquia, eu não sou renegado sem causa. e uma dose de amor, esse artigo sempre em falta, cairia muito bem em mim. aí um analista amigo meu disse que desse jeito não vou ser feliz direito porque o amor é mais profundo que um encontro casual. mas eu não estou interessado em nenhuma teoria. não quero regra nem nada. não preciso que me digam de que lado nasce o sol. viver é melhor que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa. amar e mudar as coisas me interessa mais.

a vertigem, o abismo, me atrai, é esta a minha brincadeira. talvez eu morra jovem. sempre é dia de ironia no meu coração. algum punhal de amor traído completará o meu destino. palavra e som são meus caminhos pra ser livre.

você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo. eu sou como você. que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo. e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo. que ficou apaixonado e violento. você sabe bem, conheço meu lugar. mas não se preocupe com os horrores que eu lhe digo. ando mesmo descontente. o tempo andou mexendo com a gente sim. a vida realmente é diferente. quer dizer, a vida é muito pior.

domingo, 9 de setembro de 2012

16/03/10

sou daqueles cegos que preferem a viseira da esperança
a encarar a macabra realidade
travestida impiedosamente em pobres crianças
com sorrisos em seus podres dentes
punhaladas renitentes
da previsível sorte que nos abaterá

estático, paro, reparo, escuto e vejo o mundo
assisto seu teatro admirável e nauseabundo
encapsulado em minha gaiola de covardia
encurralado neste meu gênero defeituoso
que em seu artifício tortuoso
detém a própria teimosia.

t.s.siqueira

sábado, 8 de setembro de 2012

.

Uma vez eu tive uma ilusão.
E não soube o que fazer.
Não soube o que fazer.
Com ela.
Não soube o que fazer.
E ela se foi.

domingo, 26 de agosto de 2012

desmundo

são portas que se fecham.
olhares que se vão.
a mil.

um exorcismo relampejado.
um destratar da criação.
amiúde.

estão dissolvidos no mar os paradoxos.
o ontem e o amanhã em separação.
tácita.

antes um pendor, agora equilíbrio.
não mais arguido na interrogação
taciturna.

é na sangria da violência interna.
guerra forjada no talhar imundo,
absurdo,

que do velho cria-se o novo
e tudo se transforma.

é ansiada (e dolorosa) a liberdade,
mas neste lugar há preço para tudo
desmundo

aqui há circunferências que desenham arestas
ciclos que encontram seu fatal fim.
desmundo

desmandos, desarmes, desastres
fecho a carne e escondo o rosto
outro alguém nascituro

desmundo

t.s.siqueira

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

You've got tombs in your in your eyes, but the songs
You punched are dreaming
Listen, they sing of love so sweet
When you gonna get yourself back on your feet?
Oh and love can be so sweet, love so sweet...

Joni Mitchell

sábado, 11 de agosto de 2012

meu rumo segue em um barco
ancorado em uma baía de ausências,
uma essência distante onde se afogam meus deslizes.

minha bandeira se prende a um arco
que no alto ostenta as agruras da amargura
e tremula vacilante minhas perversas cicatrizes.

minha vida naufraga em um charco,
vai a se debater no lodaçal de enganos
do tirano instante de mil memórias infelizes.

minhas mágoas cantam um pranto
onde um barco desenhado em lágrimas e giz
atravessa as tormentas de um desastrado oceano.

                                T.S.Siqueira

domingo, 5 de agosto de 2012

eu quase não falo,
eu quase não sei de nada,
sou como rês desgarrada nessa multidão boiada caminhando a esmo...

Lamento Sertanejo - Dominguinhos/Gilberto Gil

quarta-feira, 13 de junho de 2012

tudo ao mesmo tempo agora

Melancolia é coisa duvidosa. Não se sabe ainda se é vontade de futuro ou lamento de passado.
O que sei é que toda melodia me parece triste e meus olhos, subversivos, entregam, o que consinto, insisto, em não me entregar.

Falar de amor é tão vão e profundo. 
A gente sabe o que quer, a gente sabe o que ama, a gente sabe da vida, a gente só não sabe saber.
Talvez por isso seja tão mais fácil rimar amor com dor.
É tão difícil caminhar para frente quando a cabeça insiste em olhar para trás.
O novo te faz recuar até à decrepitude em que a coragem se enterra.

"Mas sabe lá, o que é morrer de sede em frente ao mar?"
E não pode ser. Não dá pra ser.
Sol e lua se sucedem, mas não se descobrem, não se percebem...
A vilania da natureza é fazer com que um persiga o outro durante toda a eternidade sem ao menos se tocarem.
Sem ao menos...

Os relógios giram, os refúgios acabam, as idéias avançam, os outros vão e eu permaneço aqui.
Os ventos mudam e eu, teimosamente, não.
Dançamos no mundo a música do medo.
Da fome ferina pelo outro.
Da farsa furiosa do fingir que ferro somos.
Até as cortinas revelarem o seu patético espetáculo.

E de quem tanto se espera, por esperar tempo demais, uma hora vai embora.
E todo aquele carinho contido, beijo clichê e sonho velado, escorrem pelo ralo da desilusão.

"I can't live with or without you..."

T.S.Siqueira

terça-feira, 1 de maio de 2012

feito pra acabar

largo tudo se a gente se casar domingo, na praia, no sol, no mar, ou num navio a navegar, num avião a decolar indo sem data pra voltar. toda de branco no altar, quem vai sorrir? quem vai chorar? ave maria, sei que há uma história pra sonhar...

pra sonhar.

sábado, 31 de março de 2012

Encosta sua solidão na minha.
Adoça a linha fria do horizonte.
Você aqui, tempestade passeia longe.
Recosta seus passos pesados
Nesse meu vagar sozinho.
Apaga teu rastro e esquece outros rostos.
Em teu sorriso vago mora meu sorriso bobo,
De enfeitar de flores tua boca
e me dizer colibri.
Decreto primavera sem lei!
Arranca fora esses olhos cansados
Que aqui te entrego os meus.
Nos meus olhos, vê quem eu te vejo, bela,
E sê o verbo que me conjuga
Além deste passado imperfeito.
Vem e descansa sua vida no meu ombro,
Que no tardar do tempo que nos atropela,
O tempo de amar é pouco,
E eu só quero cuidar de você.
Encosta sua solidão na minha
E faz em um, um número par.

                                  T.S.Siqueira

terça-feira, 13 de março de 2012

far away

Un viaggio ha senso solo,
senza ritorno se non in volo, senza fermate nè confini,
solo orizzonti neanche troppo lontani,
io mi prenderò il mio posto
e tu seduto lì al mio fianco,
mi dirai - Destinazione Paradiso.

GRIGNANI

quinta-feira, 8 de março de 2012

[...]Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento.
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento.[...]

R. Fagner

Do destino par

O meu premente desenlace de todo o homem
Perdido está em uma esquina com todo o mundo.
O destino mora agora nas reentrâncias do juízo,
Nas circunstâncias que abalam o precipício,
Da miséria bela em que se desenha o amor.

Mais prosaico que poético,
Meu mundo é loucura e prejuízo.
Pecado, silêncio e resignação.

Desafino atravessado em uma valsa de adeus.
Lúcidas alucinações neste escrever sandeu.
Aventura desvairada em desatino.

Se sozinho e distante, a sorte me conserva,
Nas palmas do fim do espetáculo,
Me embriago em ilusão que me valha.

E se vontade me falta, ou me abandona o tino,
Para levar adiante a cabeça erguida,
Conservo um gosto de vida, um beijo de Deus,
Que todo divino sonho há de combater o travesseiro ateu!
Que para toda solidão há o antídoto do novo!

        T.S.Siqueira

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Saudade é bicho que mata.
Morde na carne, rasga a alma.
nos todos quereres das minhas querelas,
as cores das dores no peito pincela.

                   T.S.Siqueira

Soneto de desilusão

Perdeu a vida teu sentido vital
Ao tempo que me encontrei leviano,
Trilhando por erros e desenganos...
Ai, estigmas que tanto me fazem mal!

Este meu pálido olhar é uma janela
De onde se contempla grande beleza
Que este coração converte em tristeza,
Aprisionado ao amargor de sua cela.

Machucando devagar, feito espinho
Rasgando a pele com as violências
Que fazem da alma um objeto servil,

A se esconder no obscuro, no sombrio,
No vazio santuário da demência
Cemitério onde apodreço sozinho.

                    T.S.Siqueira

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Morning pours the ocean deep 
Into the hollow of my sleep 
But the ocean can't be mine 
Your perfection can't be mine.

Cruiser, by Red House Painters

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Reflexão

O espelho de três faces
Suspirava debochado,
E enquanto cortava os pulsos
Com estilhaços pesarosos,
Sorria-me um sorriso suicida
E sibilava-me ao ouvido:
Decifra-me ou te devoro.

                      T.S.Siqueira

Tristão e Isolda

Castelos de areia e cartas
Castos cáusticos beijos
Constelação castrada
Dilema desperto
Costela de Adão
Insuspeito desejo
Desastrado desfecho
Despetalada desilusão.

         T.S.Siqueira
fiz-me poeta
no ventre da noite
que nasce ao dia.
de peito chagásico,
timidez saturada,
e escrita arredia.
armadura ilusória
pra amargura esporada
em lírica doentia.
vagabundas vaidades
na solidão velada
do lirismo que escorria,
em vazar avenidas de sentimento
nos becos de palavra vazia.

                        T.S.Siqueira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

I remember that time you told me,
You said: "Love is touching souls".
Surely you touched mine, 
Cause part of you pours out of me
In these lines, from time to time.

Joni Mitchell

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Arcádia

O lusco-fusco surgia no céu do final da tarde e a cadeira de balanço rangia. Era assim todos os dias. Os cabelos brancos se assentavam no encosto da cadeira e farfalhavam, bagunçados, ao sabor da brisa. Não demorava muito, vinha o menino e sentava no seu colo. As pernas ossudas e magras eram desconfortáveis, mas o guri já se acostumara.

Depois de escalar as pernas e acomodar-se, recostava a cabeça no peito que piava cansado. Não tardava muito e ele dormia de olhos abertos. Uma das mãos enrugadas passeava pelos cabelos negros.

A orquestra da tarde dava seu concerto: os pássaros assoviavam com o sussurro dos ventos, o menino ressonava e o velho, vez em quando, marcava o ritmo ao encostar o alvo bigode na cabeleira preta com o estalido de um beijo. Os dois não conversavam, apenas dividiam a beleza daquele fugidio instante. Aliás, quase nunca se falavam porque nos silêncios se compreendiam, se contemplavam e se completavam. O silêncio sempre soube falar mais que a palavra.

O menino pensava o velho como árvore e fazia ali sua morada. O corpo curvado, um tronco feio, retorcido e rígido, mas ainda sustentava toda terra. A cabeça branca, uma copa que ostentava as jabuticabas pretas que olhavam a todos com doçura. Nos bigodes, um ninho atravessado pelo tempo e agora vazio. No peito, travesseiro dos sonhos, um pássaro trabalhava intermitente. Na aflição de quando o pássaro falhava, no alívio da sua volta ao trabalho: o menino sabia que chegaria o dia que ele iria embora de vez. E chorava. Escorrendo pelo peito a água de seus olhos. E regava a velha raiz que escorava a sua paz.

O velho flutuava distante. O vento ruidoso nas enormes ventas o levava longe naquele mesmo lugar. Os olhos pretos retintos pareciam duas fendas de onde se via o interior do seu interior. Miravam o horizonte, mas contemplavam dentro de si mesmo a generosidade da vida que permitia a felicidade de oitenta anos com apenas uma cadeira de balanço e um sorriso de oito.

Pendendo de um lado ao outro, misturavam-se as infâncias: aquela, dos dias, e a infância da verdade, nutrida na força de se entender efêmero e perene perante a insignificância das mortalidades.

Naquele momento em que o sol se punha e a noite chegava, naquele lugar no meio do nada, ali estava tudo. Ali era o mundo. O menino e o avô do menino.

                                                                                     T.S.Siqueira



Casulo

Meus desencontros querem se encontrar
E este sorriso já não os seguram.
Vou-me embora sem adeus.

                                  T.S.Siqueira