O silêncio precede a combustão de vida
Ecoam gritos de uma batalha sofrida
Lágrimas sorridentes se misturam ao sangue
[Ansioso como nunca
A angústia me consome]
As afiadas lâminas não cessam sua missão
O antigo sopro de vida recebe sua incisão
É o ingresso de um novo ciclo, de uma revanche
[Incórporea como o nada
A agonia me perturba]
Um interminável propósito de vingança
Ao longe, lancinantes gemidos de uma criança
Ao peito, um penitente coração pranteia
Ruídos no calabouço
Passos no corredor
Música em meus ouvidos
- Nasceu!
T.S.Siqueira
domingo, 17 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Buarqueanas
Elena bateu a porta com força. Daquela vez, ele sabia, era pra não mais voltar. Juras em vão, flores no chão e declarações vazias. Elena não dançava no mesmo ritmo dele. Nunca dançou. Aquele seu jazz era demais pra um homem que só ouvia valsinhas.
O apartamento era sufocante, nas ruas as flores murchavam nos seus jardins de plástico. A tarde rodopiava os ponteiros do relógio. O céu vestia seu terno cinza e caía sobre os ombros do homem na sacada. E mesmo assim, ele pegou suas chaves e foi à praia. Rezava para que a brisa que lhe convidava ao delírio levasse toda sua alma embora e junto com ela roubasse os fragmentos pulsantes de Elena. Queria exorcizar-se.
Sentou-se em frente ao mar e de repente, aquela profusão de águas lhe respondeu. Uma onda estourou nos recifes e trouxe com ela um papel manchado e velho. Pra ele, uma distração recente e límpida. Um retrato em preto e branco onde duas figuras indistinguíveis formavam um casal. A qualidade era péssima, o estado decrépito, os anos eram muitos, mas eram semblantes felizes.
E como se a realidade cuspisse nos seus olhos, aquele escritor de meias palavras retornou à uma órbita chamada Elena. E dividia-se entre a fantasia da fotografia que emoldurava uma era feliz e a tristeza escandalizada que lhe arreganhava os dentes e ria com desprezo na sua cara. Elena gritava o seu nome presa naquele retrato. Não um grito de desespero, mas de rancor. Vestígios de uma vida vivida sem paixão.
O eco daquelas palavras antigas gritava aos seus ouvidos, e como se conseguisse enxergar-se naquele pedaço de papel, ele reconhecia sua própria imagem e ali, a mulher de rosto manchado era a sua Elena. Nesse universo indigesto, frias e anônimas memórias lhe recobravam a lucidez perdida naqueles dias que ele não viveu.
Aquele homem que era e não era ele parecia estampar um sorriso estático e insuspeito, comum aos que acreditam no amor, mas pressentem dias revoltos no futuro. E o longo paletó de outrora envolvia o vestido de uma Elena serena, um vulcão que não se sabe quando, não se sabe onde, entraria em erupção.
E tal qual pílulas de amargura, as promessas falsas daquele amor inexistente arranhavam o seu peito. Dizem que o amor é cego, mas o pior é aquele amor que não se vê.
Então ele percebeu que atrás daquele papel amassado e sujo havia algumas linhas rabiscadas. Procurando por respostas, ele se deparou com parcas palavras que um dia se perderam em um coração:
“O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio. Amores serão sempre amáveis." 22/09/1956
Nas linhas da velha poesia que se renova, o vento que lhe presenteou aquela história soprou-a de volta ao lugar de onde veio, e os dedos cientes do destino que pedia para se completar, folgaram-se. Enquanto o mar mastigava novamente a fotografia, o homem sentia parte da sua história fluindo junto àquele retrato, e resignado, ele tinha a certeza de que em um futuro longínquo, as metades de sua vida teriam um reencontro.
T.S.Siqueira
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