de tantas maneiras de deixar o tempo passar, as minhas escolhas são sempre as erradas. você sabe que eu nunca fiz nada do jeito certo. o diabo escreve o torto nas linhas mais certas. a minha única reação a qualquer coisa ainda é mandar ir se danar. na boca há um protocolo padrão de frases fodidas pelo álibi que a gente criou para esquecer de sonhar.
eu ainda vou sozinho ao cinema em sessões vazias. eu ainda ouço sinatra e waldick na mesma playlist. ainda levo uma caneta em qualquer lugar que eu vá. bebo o mesmo café com leite empelotado. acho que casablanca é superestimado e que caeiro é o melhor heterônimo. tenho as mesmas certezas, mas me faltam as velhas dúvidas recorrentes.
de falar bobagem até as três da manhã, discutir a origem de tudo, explicar as razões da minha impaciência com super-heróis ou argumentar que uísque vai bem com qualquer coisa no universo. nunca houve consenso de porra nenhuma entre a gente. talvez apenas o jeito amuado e arredio. ou talvez nos livros trocados. os erros nas dedicatórias são vícios, mas não as escolhas.
dia desses, na fila do supermercado, senti um cheiro seu. aquele xampu enjoativo que me fazia repetir a urgência e a beleza que tinham os seus cachos curtos. deixaram um pote cair no chão empesteando o ar todo. tão banal que ninguém mais naquela fila deu atenção. a exceção é a minha mania de colecionar detalhes.
ainda escrevo muito para que ninguém leia. há uma dobra da verdade em tudo aquilo que faço.
fumo descontroladamente, encho a cara e sou inconsequente. tem sido a minha resposta pra tudo. meu desleixo é minha marca. o que determina o ritmo dos meus passos. do meu verso. meu verbo.
alice, não há palavra que eu escreva que não seja de amor.