as ruas alargadas do meu querer cultivam essa saudade que não conhece existir. brota entre os paralelepípedos como praga e todas as crianças desde os três anos já lhe chamam pelo nome: sau-da-de. fui interpelado: como pode caber tanto mundo em apenas três sílabas? não sei de onde saiu ideia de se poder saber sobre tudo. é de sentir um cano de espingarda a cutucar as costelas cada vez que explicam os vaga-lumes.
saudade. com a língua estalada e macia no céu da boca. dessas que vem e se derrama no piano. derrama litros e litros. faz que morre, mas ressuscita no terceiro dia. reencarna em um perfume, em um cangote. e se arrebita. e lá outra vez inquire razão de forçar tanto mundo em parcas letras. ninguém permitiu ao escritor o endereço das palavras, imagino eu. quem daria livre acesso para que em sua incansável romaria fosse bater às portas, cobrando-lhes ocupações, dívidas sentimentais e canetas esferográficas perdidas? e desata então a esperar o novo. o sol nas praças. o ranger das vértebras. os intervalos rítmicos de se respirar. de se fazer amor com as palavras e parir algumas saudades.
poesia é amar e arar a terra. escapar à aridez dos não ditos. escrever sempre foi atender ao chamado do caos. identificar no chão os passos do insondável, as vozes do indizível. o infinito que cada um guarda em si é incapaz de atravessar a garganta. camelos fazem de agulhas bambolês com mais facilidade. de calar tão fundo, feito poeira acumulada na quietude dos anos, as palavras deixam em nós um longo deserto. e isso diz muito dessa resistência a bater continência para fronteiras que nos constroem, bandeiras que nos impõem. ora, gente é coisa que não se sabe onde começa ou onde termina. gente é imorredouro. mesmo que a morte nos aguarde na sala de recepção.
aflito de sono, o poeta só quer guardar a sua lua ao final do corredor. ouvir um pianista belga e escrever como os russos. a doença assimétrica que o corrói é tudo aquilo que sobra ao não caber nas paralelas da linguagem. algumas guerras são travadas apenas para se existir. e mesmo que ignorem, existir exige cuidado.
embrulhada em folhas de jornal e páginas de livros, vai uma excitação por qualquer coisa que confirme quimeras. qualquer estratégia de ruptura. tenho olhos que insistem em desconhecer o mundo. daí que isolo a saudade aqui na gaiola do peito e faço um paraíso de improviso. a danada vem e me assovia uma música. e todas as bocas selarão mudas. absurdas.
t.s.siqueira