As duas mulheres andavam rapidamente pelo passeio público. O toc-toc dos tamancos diluía-se na sinfonia barulhenta da cidade. A mocinha, que deveria estar entre seus 7 e 8 anos, andava arrastada pela outra que parecia ser sua mãe, e fazia muxoxos de reprovação enquanto revistava a avenida com um olhar distraído. A mãe, por sua vez, era uma quarentona impetuosa. Seu rosto, apesar de alquebrado, preservava ainda um pouco da beleza de sua juventude e mantinha ainda a aura de uma mulher inteligente. Andava apressada, equilibrando os pacotes do supermercado e, com uma cara de funcionário público em dias de longas filas, franzia o cenho irritada com a filha.
Em frente ao parque da cidade, a menina estancou.
- Tô cansada, mãe. Quero sentar um pouquinho!
A mãe procurou por paciência, gastou a última reserva que lhe restava e disse:
- A gente já está perto de casa, filha. Vamos andando! Seu irmão está esperando a gente.
A garota já não ouvia. Seus olhos distraídos faiscavam e miravam um arbusto ali perto. A mãe resmungou novamente:
- Vamos, Alice!
- Espera, mãe! Você não tá vendo?
- O quê, Alice? O quê, Alice? – uma das bochechas da mãe tremia no ritmo em que seu cérebro latejava.
- Olha mãe, um sapo!
- Mas o que é que tem os sapos? Chega, Alice! Vamos embora!
A mãe esticava a filha, dando-lhe puxões, até que, inesperadamente, a garota soltou-lhe as mãos, correu ao sapo, pregou-lhe um beijo e voltou desvairada com um sorriso na boca.
- Mas que porcaria, Alice? O que é que você estava esperando? Um príncipe? Você não acha que já passou do tempo de acreditar em conto de fadas?
A criança não demorou a chorar:
- Mãe, você não entende! Você nunca entende!
- Você que não entende, Alice! Você que não entende. – falava como se estivesse repetindo um mantra em que nem ela mesma acreditava – Não entende que foi-se embora o tempo de sonhar... – E algumas lágrimas desobedientes molhavam os seus óculos.
Na luz fria do anoitecer, as duas mulheres caminhavam, deixando para trás o rastro de suas lágrimas. Uma pulsando o peito de utopias, a outra no compasso lento da desilusão urbana.
T.S.Siqueira