segunda-feira, 25 de julho de 2011

Poeminha torto

Escrevi uma linha e apaguei
O poema torto não rimou
Garoto despeitado!
Conheceu uma turma d’O Capital
Virou marxista
E prometeu greve até nunca mais
Se preciso, até sindicato!

Supliquei-lhe o acordo
Ao acaso, há poeta sem poesia?
O tortinho então parecia ceder
Mas com ressalvas, cuspiu na minha cara:
– Poesia não tem rima, ó estúpido!
Basta ao lirismo a alma!

     T.S.Siqueira
Nosso perdido amor de giz
Desfez-se enquanto escrevia em dois
O conto de um coração infeliz.

     T.S.Siqueira

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um vento que sopra de norte nenhum
Um vento que vai
Voa
E sai sem rumo algum
Carrega com ele
Meu coração

    T.S.Siqueira

Elogio ao Desvario

Bem aventurados os que amam
Pois sem eles
Quem divertiria os sábios?

     T.S.Siqueira

um amor em sete cores

Leila ardia. Não conseguia mais fazer qualquer coisa que fosse. Dedicava seus dias à uma adoração cega de uma paixão desmedida. A mãe já não sabia o que fazer. Os castigos já não funcionavam. Tampouco as severas surras aplicadas pelo pai. Mas Leila ainda ardia. As amigas passaram a ignorá-la. O pai levava e trazia a garota do colégio para casa, único passeio permitido à ela naqueles tempos. Mas a gaiola construída pelos pais não a prendia. E Leila ardia. Na rua, já era mal falada. Na escola, ninguém a cumprimentava. A madre superiora chamou-lhe para um sermão e pouco adiantava. Ainda Leila ardia. Em um descuido dos pais, um jantar de bodas, a casa vazia, as portas trancadas, propostas indecentes sussurradas nas janelas. Um leve descuido e Leila fugiu. A família, se reputação ainda tinha, não mais se refez. O pai acusou a mãe. A mãe cumpriu sentença: barbitúricos. O viúvo não vivia, de desgosto perecia. Em algum canto do mundo, com a amante, em amor Leila ardia.

                   T.S.Siqueira & L.Carvalho

Coração, desejo e sina

As duas mulheres andavam rapidamente pelo passeio público. O toc-toc dos tamancos diluía-se na sinfonia barulhenta da cidade. A mocinha, que deveria estar entre seus 7 e 8 anos, andava arrastada pela outra que parecia ser sua mãe, e fazia muxoxos de reprovação enquanto revistava a avenida com um olhar distraído.  A mãe, por sua vez, era uma quarentona impetuosa. Seu rosto, apesar de alquebrado, preservava ainda um pouco da beleza de sua juventude e mantinha ainda a aura de uma mulher inteligente.  Andava apressada, equilibrando os pacotes do supermercado e, com uma cara de funcionário público em dias de longas filas, franzia o cenho irritada com a filha.
Em frente ao parque da cidade, a menina estancou.
- Tô cansada, mãe. Quero sentar um pouquinho!
A mãe procurou por paciência, gastou a última reserva que lhe restava e disse:
- A gente já está perto de casa, filha. Vamos andando! Seu irmão está esperando a gente.
A garota já não ouvia. Seus olhos distraídos faiscavam e miravam um arbusto ali perto. A mãe resmungou novamente:
- Vamos, Alice!                                                                                                       
- Espera, mãe! Você não tá vendo?
- O quê, Alice? O quê, Alice? – uma das bochechas da mãe tremia no ritmo em que seu cérebro latejava.
- Olha mãe, um sapo!
- Mas o que é que tem os sapos? Chega, Alice! Vamos embora!
A mãe esticava a filha, dando-lhe puxões, até que, inesperadamente, a garota soltou-lhe as mãos, correu ao sapo, pregou-lhe um beijo e voltou desvairada com um sorriso na boca.
- Mas que porcaria, Alice? O que é que você estava esperando? Um príncipe? Você não acha que já passou do tempo de acreditar em conto de fadas?
A criança não demorou a chorar:
- Mãe, você não entende! Você nunca entende!
- Você que não entende, Alice! Você que não entende. – falava como se estivesse repetindo um mantra em que nem ela mesma acreditava – Não entende que foi-se embora o tempo de sonhar... – E algumas lágrimas desobedientes molhavam os seus óculos.
Na luz fria do anoitecer, as duas mulheres caminhavam, deixando para trás o rastro de suas lágrimas. Uma pulsando o peito de utopias, a outra no compasso lento da desilusão urbana.

                                                  T.S.Siqueira