sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

joão-ninguém

pois você sumiu no mundo sem me avisar
e agora eu era um louco a perguntar
o que é que a vida vai fazer de mim?

chico buarque de hollanda

sábado, 3 de dezembro de 2011

o cais das lágrimas

Nos duros rochedos onde nos empurra a correnteza da vida,
A delícia que se reserva aos que sonham em crepom
É o dom de afogar-se na tristeza ressurrecta,
Sob a sina de quem se resigna ao fracasso premente,
E assim abandonar o cais, deixando todas ilusões na areia.

É a dádiva de mergulhar ao mar embriagado nos sorrisos da sereia
E nas cambalhotas do destino ver seu barco naufragar,
Que toda mágoa nas águas do mar afunda,
Pra quando restar da sereia somente o triste canto,
Perder-se em um canto qualquer de mundo.

                       T.S.Siqueira

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Das insônias, febres e faces descoloridas

Que o luzir do farol da vida não me leve
aos romances descarnados do amar por amar,
no vão entre palavras vazias e marcas de batom.

Pois que o amor também mora nos silêncios.
Vive na louca poesia engasgada,
dança nos descompassos da respiração.

Mora no bater esgarçado de um coração.
Em um abraço rasgado de sonhos
e nos olhos que suspiram melodias.

O amor vive na fresta da porta de onde se vela o sono de quem se ama.

O meu amor mora nas ausências!

                       T.S.Siqueira

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Procura-se

Uma moça com o sorriso de aurora,
Olhos de entardecer
E alma de céu estrelado,
Para que em seu amor
Meus dias nasçam e morram.

                   T.S.Siqueira

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Caleidoscópio das insignificâncias

Confesso que me perdi por entre as quase dúvidas, a constante autoanálise, as ânsias pela metade e angústias inteiras.
Decidi me esconder nas frestas dessas palavras e então guardo nos cantos dos sorrisos as incertezas dos meus tormentos.
E me dou conta de como é visceral, mutilante e destrutivo.
É o nada, sereno, aberto e aterrorizante.
O sentimento de que se é uma peça de quebra-cabeças que se perdeu em um jogo que não é o seu.
A sensação de não pertencimento.
Falo dos abismos que me separam da conformidade.
Falo de solidão.
Não apenas a solidão dos romantismos exagerados e falhos.
Do amor, que chegue sem que eu o espere, entre sem fazer barulho e pé ante pé deite na cama onde durmo.
A solidão é além.
Eu falo da linguagem, dos gritos mudos, loucos, aos surdos, em que surto sem me perceber.
Um desejo que não deseja estar ali, uma vontade de ser ausente quando se está presente...
Me ouço em incompreensíveis canções criptografadas.
Assim como o Renato, já estou cheio de me sentir vazio.
Me reconheço em transcrições de um desajustado Belchior que se desespera.
Amar e mudar as coisas também é o que me interessa mais.
Me vejo em déjà vus de filmes de uma Sofia Coppola que me desenha abstrato nos quadros periféricos da inadequação.
Ou nos tragicômicos Woody Allens da vida, em que o riso é fácil na sátira ao homem que carrega buracos no peito.
Que a desesperança não me deixe carcomido, mas me pergunto: quem fará o palhaço sorrir?

                             T.S.Siqueira

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão.

                  A.C.Belchior

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tempo Rei

Enquanto o tempo me permuta,
tanto quanto me recorda
o quanto, tanto, me tortura,
borda quase tanto tempo,
que quanto menos tempo deixo
às lembranças de outrora,
tanto mais eu me permito
uma vida sem memória.

                 T.S.Siqueira

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Perco-me nestes desvãos de pensamentos,
neste querer não querendo, que lento,
que latente, lá dentro, em lamento,
delira e dilacera meu peito.
                                   
              T.S.Siqueira

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa
  
  Alice Ruiz
Sobe ao céu incandescente
Lua cheia e vazia
E na vazante da minha vida
Preenche essa solidão.

  T.S.Siqueira

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Poeminha torto

Escrevi uma linha e apaguei
O poema torto não rimou
Garoto despeitado!
Conheceu uma turma d’O Capital
Virou marxista
E prometeu greve até nunca mais
Se preciso, até sindicato!

Supliquei-lhe o acordo
Ao acaso, há poeta sem poesia?
O tortinho então parecia ceder
Mas com ressalvas, cuspiu na minha cara:
– Poesia não tem rima, ó estúpido!
Basta ao lirismo a alma!

     T.S.Siqueira
Nosso perdido amor de giz
Desfez-se enquanto escrevia em dois
O conto de um coração infeliz.

     T.S.Siqueira

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um vento que sopra de norte nenhum
Um vento que vai
Voa
E sai sem rumo algum
Carrega com ele
Meu coração

    T.S.Siqueira

Elogio ao Desvario

Bem aventurados os que amam
Pois sem eles
Quem divertiria os sábios?

     T.S.Siqueira

um amor em sete cores

Leila ardia. Não conseguia mais fazer qualquer coisa que fosse. Dedicava seus dias à uma adoração cega de uma paixão desmedida. A mãe já não sabia o que fazer. Os castigos já não funcionavam. Tampouco as severas surras aplicadas pelo pai. Mas Leila ainda ardia. As amigas passaram a ignorá-la. O pai levava e trazia a garota do colégio para casa, único passeio permitido à ela naqueles tempos. Mas a gaiola construída pelos pais não a prendia. E Leila ardia. Na rua, já era mal falada. Na escola, ninguém a cumprimentava. A madre superiora chamou-lhe para um sermão e pouco adiantava. Ainda Leila ardia. Em um descuido dos pais, um jantar de bodas, a casa vazia, as portas trancadas, propostas indecentes sussurradas nas janelas. Um leve descuido e Leila fugiu. A família, se reputação ainda tinha, não mais se refez. O pai acusou a mãe. A mãe cumpriu sentença: barbitúricos. O viúvo não vivia, de desgosto perecia. Em algum canto do mundo, com a amante, em amor Leila ardia.

                   T.S.Siqueira & L.Carvalho

Coração, desejo e sina

As duas mulheres andavam rapidamente pelo passeio público. O toc-toc dos tamancos diluía-se na sinfonia barulhenta da cidade. A mocinha, que deveria estar entre seus 7 e 8 anos, andava arrastada pela outra que parecia ser sua mãe, e fazia muxoxos de reprovação enquanto revistava a avenida com um olhar distraído.  A mãe, por sua vez, era uma quarentona impetuosa. Seu rosto, apesar de alquebrado, preservava ainda um pouco da beleza de sua juventude e mantinha ainda a aura de uma mulher inteligente.  Andava apressada, equilibrando os pacotes do supermercado e, com uma cara de funcionário público em dias de longas filas, franzia o cenho irritada com a filha.
Em frente ao parque da cidade, a menina estancou.
- Tô cansada, mãe. Quero sentar um pouquinho!
A mãe procurou por paciência, gastou a última reserva que lhe restava e disse:
- A gente já está perto de casa, filha. Vamos andando! Seu irmão está esperando a gente.
A garota já não ouvia. Seus olhos distraídos faiscavam e miravam um arbusto ali perto. A mãe resmungou novamente:
- Vamos, Alice!                                                                                                       
- Espera, mãe! Você não tá vendo?
- O quê, Alice? O quê, Alice? – uma das bochechas da mãe tremia no ritmo em que seu cérebro latejava.
- Olha mãe, um sapo!
- Mas o que é que tem os sapos? Chega, Alice! Vamos embora!
A mãe esticava a filha, dando-lhe puxões, até que, inesperadamente, a garota soltou-lhe as mãos, correu ao sapo, pregou-lhe um beijo e voltou desvairada com um sorriso na boca.
- Mas que porcaria, Alice? O que é que você estava esperando? Um príncipe? Você não acha que já passou do tempo de acreditar em conto de fadas?
A criança não demorou a chorar:
- Mãe, você não entende! Você nunca entende!
- Você que não entende, Alice! Você que não entende. – falava como se estivesse repetindo um mantra em que nem ela mesma acreditava – Não entende que foi-se embora o tempo de sonhar... – E algumas lágrimas desobedientes molhavam os seus óculos.
Na luz fria do anoitecer, as duas mulheres caminhavam, deixando para trás o rastro de suas lágrimas. Uma pulsando o peito de utopias, a outra no compasso lento da desilusão urbana.

                                                  T.S.Siqueira

domingo, 17 de abril de 2011

Guerra e Paz

O silêncio precede a combustão de vida
Ecoam gritos de uma batalha sofrida
Lágrimas sorridentes se misturam ao sangue

                                [Ansioso como nunca
                                 A angústia me consome]

As afiadas lâminas não cessam sua missão
O antigo sopro de vida recebe sua incisão
É o ingresso de um novo ciclo, de uma revanche

                                  [Incórporea como o nada
                                   A agonia me perturba]

Um interminável propósito de vingança
Ao longe, lancinantes gemidos de uma criança
Ao peito, um penitente coração pranteia

Ruídos no calabouço
Passos no corredor
Música em meus ouvidos

- Nasceu!

                 T.S.Siqueira

quinta-feira, 7 de abril de 2011

"Sem você, a emoção de hoje seria pele morta da emoção de outrora"
                                                                    Hipolito

In: Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Buarqueanas

Elena bateu a porta com força. Daquela vez, ele sabia, era pra não mais voltar. Juras em vão, flores no chão e declarações vazias. Elena não dançava no mesmo ritmo dele. Nunca dançou. Aquele seu jazz era demais pra um homem que só ouvia valsinhas.

O apartamento era sufocante, nas ruas as flores murchavam nos seus jardins de plástico. A tarde rodopiava os ponteiros do relógio. O céu vestia seu terno cinza e caía sobre os ombros do homem na sacada. E mesmo assim, ele pegou suas chaves e foi à praia. Rezava para que a brisa que lhe convidava ao delírio levasse toda sua alma embora e junto com ela roubasse os fragmentos pulsantes de Elena. Queria exorcizar-se.

Sentou-se em frente ao mar e de repente, aquela profusão de águas lhe respondeu. Uma onda estourou nos recifes e trouxe com ela um papel manchado e velho. Pra ele, uma distração recente e límpida. Um retrato em preto e branco onde duas figuras indistinguíveis formavam um casal. A qualidade era péssima, o estado decrépito, os anos eram muitos, mas eram semblantes felizes.

E como se a realidade cuspisse nos seus olhos, aquele escritor de meias palavras retornou à uma órbita chamada Elena. E dividia-se entre a fantasia da fotografia que emoldurava uma era feliz e a tristeza escandalizada que lhe arreganhava os dentes e ria com desprezo na sua cara. Elena gritava o seu nome presa naquele retrato. Não um grito de desespero, mas de rancor. Vestígios de uma vida vivida sem paixão.

O eco daquelas palavras antigas gritava aos seus ouvidos, e como se conseguisse enxergar-se naquele pedaço de papel, ele reconhecia sua própria imagem e ali, a mulher de rosto manchado era a sua Elena. Nesse universo indigesto, frias e anônimas memórias lhe recobravam a lucidez perdida naqueles dias que ele não viveu.

Aquele homem que era e não era ele parecia estampar um sorriso estático e insuspeito, comum aos que acreditam no amor, mas pressentem dias revoltos no futuro. E o longo paletó de outrora envolvia o vestido de uma Elena serena, um vulcão que não se sabe quando, não se sabe onde, entraria em erupção.

E tal qual pílulas de amargura, as promessas falsas daquele amor inexistente arranhavam o seu peito. Dizem que o amor é cego, mas o pior é aquele amor que não se vê.

Então ele percebeu que atrás daquele papel amassado e sujo havia algumas linhas rabiscadas. Procurando por respostas, ele se deparou com parcas palavras que um dia se perderam em um coração:

 “O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio. Amores serão sempre amáveis." 22/09/1956

Nas linhas da velha poesia que se renova, o vento que lhe presenteou aquela história soprou-a de volta ao lugar de onde veio, e os dedos cientes do destino que pedia para se completar, folgaram-se. Enquanto o mar mastigava novamente a fotografia, o homem sentia parte da sua história fluindo junto àquele retrato, e resignado, ele tinha a certeza de que em um futuro longínquo, as metades de sua vida teriam um reencontro.

                                                                  T.S.Siqueira

quinta-feira, 31 de março de 2011

Fugere Urbem

Para, pensa, pulsa
E promete, e procede, e progride
Assiste ao outdoor no coração de prédios
Vai, Babel dos povos e nações
Vai ser alguém na vida, em terras de lida, suor e solidão

Pandemônio de holocaustos 
Onde submergem seus nativos cativos
Devotos incautos
E pragmáticos sem dogmas
Fugindo do tráfego e do tráfico

Injusta, assusta, quem não acompanha o compasso
De teu samba, teu rock, teu pop hip-hop
No teu leito, o templo de Pan
É templo de Alah, Zeus, de Odin, Tupã,
E de todas as outras tribos que abdicam do penacho
Na transa transcedental de indistinguíveis fêmeas e machos

Condenados à demência que delimita distritos
Onde pretos e pobres não são bem-vindos
Condensados à grande massa anêmica
Do aborto gigante que se ergue
Assanha os céus e a tudo engole
E sapateia a ordem sob teu olhar
De mãe impiedosa no altar
Que é teu por direito, oh deusa Metrópole.

                                    T.S.Siqueira
Que nas torturas toda carne se trai
Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai

Com precisão
                                 Zé Ramalho

terça-feira, 29 de março de 2011

Dura Lex, Sed Lex

A placa sobre a mesa ainda estampava as letras garrafais douradas: DR. LEOPOLDO DE CASTRO MONTES. Doía creditar aquele como o seu último dia quarenta e dois anos depois de entrar pela primeira vez naquela sala. Os poucos fios de cabelo que lhe restavam pintavam branquejavam sua cabeça. As mãos rígidas e os braços violentados pela artrite já não lhe permitiam tocar o violino. Aos oitenta anos, era inapto para suas duas maiores paixões: a música e os tribunais.

O velho Castro Montes iria enfim se aposentar. Tanto a memória o traiu que já não podia mais seguir. Olhava desolado as caixas com seus livros, seu violino, seus pertences... Praticamente toda sua vida ali, espalhada pelo chão do escritório. Embalados para um adeus sem retorno. A primeira esposa morreu junto ao filho natimorto. Para a segunda, ele é que esteve morto toda a vida. Um divórcio redigido em mão própria.

No início, foi daqueles promissores advogados de sonho alto. "O céu é o limite." Nunca passou disso: uma promessa. Vieram as ofertas de dinheiro sujo, os acordos ilícitos, as propostas de trocas de favores e o Dr. Montes recuou. Condenou-se a décadas de reclusão longe, muito longe, do itinerário de sucesso que havia planejado um dia para si.

Manteve a vida modesta que os padres da eucaristia tanto lhe recomendavam. Era tido entre os colegas como o pavilhão moral da classe. Nunca souberam que a ética lhe valesse coisa alguma. Tinha medo. Qualquer risco sempre foi um preço alto demais para uma alma tão repleta de nulidades. Seu amparo eram os gritos magoados nas cordas do violino. Não foi amado pelas esposas, não teve filhos, os amigos eram mortos. Só lhe restou o velho violino que agora se negava a permitir seu desafino. 

Levantou-se da cadeira e empilhou todas as caixas ao lado da porta. Destrancou a penúltima gaveta da mesa: recolheu uns papéis velhos e a Smith & Wesson que uma vez comprara para se proteger durante os anos da repressão. A S&W ainda tinha as seis balas que ele pôs em 68. 1968: almas cheias de sonhos, cabeças ferventes de idéias. Para ele, 1968 nunca houve. Sua utopia era gasta. Resignou-se por anos e acomodou-se, até que a rotina padrão foi destronada pelo tempo e o mundo lhe desabou sobre as costas.

O velho revólver não estava mais carregado e o velho homem já estava morto. Cinco tiros indefectíveis. Um no violino, um na placa de inscrições douradas sobre a mesa. Uma bala na fechadura do apartamento da segunda esposa e dois tiros cravados no peito de uma mulher que se dizia, aos risos, ex-viúva. Castro Montes reservou a última bala para a sua cabeça. Pagou a uma prostituta e foi a um motel. Matou-se durante o orgasmo. Após oitenta anos de frustração, morreu com a satisfação estampada na cara.

                                                        T.S.Siqueira

Era Uma Vez Madrugada

Madrugada
O céu entorna anonimato
Sobre a noite que tombou seu véu

Poetas medíocres castigam seus dedos
Velhas sandias sussurram à escuridão seus segredos
Enquanto seus vizinhos do lado gemem baixinho

Dorme o sono dos justos o bom burguês
Na sua esquina, uma menor não entende francês
E o cliente procura outra no barzinho

Uma mãe sai de casa sem deixar rastro
Uma filha seduz o padrasto
Uma criança chora em uma casa vazia

Um avô tem o terceiro infarto
Outra mãe morre no parto
Outro filho para uma tia

Mulheres tristes velam seu marido morto
Um viúvo caminha pela casa absorto
O coveiro ronca sobre os jazigos

Gatos reviram lixeiras, cães uivam pra lua
No lixo, o jantar de um menino de rua
É partilhado com seus doze amigos

Alguns bêbados tropeçam em bandidos
Abatidos por outros bandidos
Na noite banal que sopra um beijo atrevido
E deixa a calamidade e o caos
Nos braços da alvorada.

Era uma vez madrugada.

                                     T.S.Siqueira

Outra Verona

Os sinos da matriz deram sua oitava e última badalada. Puxou o papel do bolso e conferiu novamente o endereço. Definitivamente era ali.
Bateu na porta. Duas. Três vezes. Uma velha surgiu à porta entreaberta:
- Madame Carmen?
- Sim, sou eu.
- Bem, eu gostaria de uma consulta e...
- Oh, claro. Entre, meu amigo. Está frio aí fora, não? Entre, por favor...
A mulher não parava de falar e ele, já desconfortável e arrependido de ter ido ver a cigana, diminuía de tamanho naquela poltrona puída. A casa recendia a mofo e a incenso. A velha espalhava suas cartas pela mesa.
- Hum...Os Enamorados. Problemas no amor não é?
Embasbacado, o homem lhe disse:
- Sim, é... Mas...
- As cartas não mentem... Ah, a Imperatriz. Mulher muito bonita tem o senhor.
O homem parecia embaraçado.
- O Hierofante e o Enforcado... E não, oh, não... A Torre. Uma mulher muito bonita guarda o coração pra você. Mas você não pode ter essa mulher. Não, você não pode... E a Torre, ela lhes separará... Triste fim, eu lamento, triste fim...
- Mas o quê? Como assim... Bem, me perdoe, eu tenho que ir...
- Espera, moço. Eu ainda não aca...
- Eu nem deveria ter vindo aqui, eu vou embora...
O homem pagou à velha e saiu. Seu coração caminhava suspenso. As ruas já não lhe seguravam. Andava em transe sem saber para onde ia. Seus pés os levaram à porta de um botequim. Lá dentro uma mulher cantava:
“O amor é dos suspiros a fumaça;
puro, é fogo que os olhos ameaça;
revolto, um mar de lágrimas de amantes...”
Um sujeito embriagado esbarrou naquele homem de caminhar triste. Reconhecendo-o, o bêbado, envergonhado, pediu-lhe desculpas...
- Tudo bem, meu filho, pode ir em paz.
O bêbado ia andando, mas como se esquecesse algo, virou-se e disse:
- A sua bênção, padre Romeu.
E a resposta veio em uma voz sufocada, mergulhada em amargura e angústia.
- Deus te abençoe, meu filho. Deus abençoe a todos nós.

                                                       T.S.Siqueira

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Carmen, de Bizet

O amor é filho da boêmia
E jamais se sujeitou as leis
Se tu me amas, eu não te amo
Se não me amas, eu te amo
Se eu te amo
Toma cuidado!

sad, sad, sad, i'm so sad...

Solitário
Cansado de seguir estrelas caídas
Seguir a vida
Seguir a trilha sem saída
Que desencaminha até o céu
Até o céu da boca

Dispenso lares
Vendo tristezas
Importo pesares
Assassino sonhos
E amaldiçoo esperanças.

Um menestrel de loucuras
Insanidades e medos
Passa tempo, passa mundo
Revoadas, passaredos
Só você não passa!

Audíveis sopros
Cantam ao sabor do vento
Encantamentos falhos
Que não reparam meu tormento.
E suplicam-me:
Para de chorar teu peito.

                               T.S.Siqueira