olha, meu bem, que todo repouso é pouso
de voar alheio à tanto mar e tanto amar.
um novo verão sempre há no sul
e a felicidade ainda é plena de azul.
essa saudade é mesmo coisa da idade
vê que o vivido há até de ser sorriso.
quando o futuro urge e nos dirige o leme.
vem, assenta a alma a bordo e reme.
quanto desconcerto para coisas comuns,
se coisa feliz mesmo é que a gente se desacerte.
deixa, que pra nascer de novo é preciso morrer,
e se for pra morrer, seja lá quantas vezes for,
sentir a vida não deve ser dúvida,
vamos todos morrer de amor.
t.s.siqueira
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
vadiagem pra manoel
uma mosca pousou no meu dedo
despiu-se do céu e provou de mim.
fez sua análise.
descruzou as pernas ao deformar o tempo.
e zombou:
disse de gigantes sem asas e moinhos sem ventos.
que homem que é homem não nasce pra voar.
mas avoa.
jeito de bicho é sereno.
pois gente feliz é bicho do mato.
t.s.siqueira
despiu-se do céu e provou de mim.
fez sua análise.
descruzou as pernas ao deformar o tempo.
e zombou:
disse de gigantes sem asas e moinhos sem ventos.
que homem que é homem não nasce pra voar.
mas avoa.
jeito de bicho é sereno.
pois gente feliz é bicho do mato.
t.s.siqueira
terça-feira, 20 de novembro de 2012
hurts
esse nó na minha garganta é que me sufoca.
me estranho, me arranho, me expulso.
repulso.
é que cura não existe.
o mundo não escolhe hora pra explodir
e eu já não posso escolher ficar.
a alma na armadura não é assim tão dura.
mágoas não se apagam com afagos.
há homens menores que suas sombras
e verdades adormecidas não são tão inofensivas.
para toda migalha de paixão
são três fatias de nostalgia, um copo de ácido e um prato cheio de memórias.
é esse mutismo que não há quem compreenda,
essas frases perdidas em páginas coladas
onde não há quem possa ler o que o óbvio esconde.
um pedido de ajuda com uma lâmina atravessada na boca.
um punhal rasgando a língua, uma liberdade violentada e essa metralhadora de clichês.
sou essa nota de rodapé na verborragia de dias de glória.
minha soturna felicidade de margem
meu pé de infinitude na beira
meu rio onde a vida se descasca devagar
com a crueldade de um nó nas cordas em volta do pescoço.
ninguém me disse que seria tão difícil.
t.s.siqueira
me estranho, me arranho, me expulso.
repulso.
é que cura não existe.
o mundo não escolhe hora pra explodir
e eu já não posso escolher ficar.
a alma na armadura não é assim tão dura.
mágoas não se apagam com afagos.
há homens menores que suas sombras
e verdades adormecidas não são tão inofensivas.
para toda migalha de paixão
são três fatias de nostalgia, um copo de ácido e um prato cheio de memórias.
é esse mutismo que não há quem compreenda,
essas frases perdidas em páginas coladas
onde não há quem possa ler o que o óbvio esconde.
um pedido de ajuda com uma lâmina atravessada na boca.
um punhal rasgando a língua, uma liberdade violentada e essa metralhadora de clichês.
sou essa nota de rodapé na verborragia de dias de glória.
minha soturna felicidade de margem
meu pé de infinitude na beira
meu rio onde a vida se descasca devagar
com a crueldade de um nó nas cordas em volta do pescoço.
ninguém me disse que seria tão difícil.
t.s.siqueira
sexta-feira, 9 de novembro de 2012
setenta e sete
somos todos devedores. viver é um empréstimo e pagar é constância reveladora do inalterável egoísmo que sacrifica e salva a espécie. nos é cobrado com a carne podre que se desintegra aos poucos. e lá no fim, quando desgastado o limiar dos olhos, quando prestes a apagar o candeeiro que ilumina aquela parcela de mundo que nós conhecemos, vender a alma ao diabo já não parece uma proposta tão aterrorizante. "somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro". nêmesis é implacável e a morte é sua imediata companheira. riem-se da finitude e da falta de fins ou funções que determinem os porquês dos homens. nos faltam selas para subir em um cavalo e partir sem rumo em fuga do destino. mentira. o que nos falta é coragem! vivemos para morrer? propósito há nessa fila de animais enfileirados nos abatedouros? pagamos promessas. cruzes que muitas vezes nos esmagam na vida cadeira de escritório, gravata apertada e esposa modelo. pagamos pecados. mais que sete. talvez setenta vezes sete. talvez pecar seja o sentido da vida. somos corroídos pelo pecado e o resto que nos sobrar é devolvido a quem nos pagar mais caro no leilão post-mortem. seja deus, o diabo ou os vermes da terra. talvez seja tudo uma viagem no elevador. simples, direta, fácil. esperamos que seja sempre assim. da maneira mais tediosa e segura possível. mas para nossa aflição, vez ou outra há desvios de percurso. uma porta que se abre antes. pessoas que entram sem pedir licença. um acidente que nos prende em algum lugar, e por mais que no fim, a gente saiba onde chegar, com a certeza de que se irá chegar, as perspectivas não se completam e o controle sobre nossa dívida se perde em números insuficientes. se um dia tivéssemos real dimensão do que nos espera, a consciência onisciente nos faria genuínos guardiões da melancolia. incertezas engarrafadas vendem muito, mas mil interrogações não valem uma exclamação no mercado de felicidade. aí é que a ilusão do amor combate este cinza singelo que deveria nos pincelar. a ilusão de uma tratativa que sara as cicatrizes da memória. a idéia de se perder entre os iguais amortece e afasta a realidade. entregar a alma ainda é a alternativa que se impõe. doar o viver, se doar, ir além da dor. cada palavra inexprimível cabe em seu exato preço na pedagogia do amor. cada dizer corresponde à maquinação perfeita que ergue a cortina que nos esconde de nós mesmos. o amor é a desesperada tentativa de sobrevivência. a razão última que precede a loucura. o resto é a resistência esporádica das ilusões. a amargura é lei, a desobediência vital, a felicidade é clandestina e a redenção, quase sempre, intangível. porque aqui não se vive, doutor, mas ainda se tenta.
t.s.siqueira
t.s.siqueira
Assinar:
Postagens (Atom)