Os sinos da matriz deram sua oitava e última badalada. Puxou o papel do bolso e conferiu novamente o endereço. Definitivamente era ali.
Bateu na porta. Duas. Três vezes. Uma velha surgiu à porta entreaberta:
- Madame Carmen?
- Sim, sou eu.
- Bem, eu gostaria de uma consulta e...
- Oh, claro. Entre, meu amigo. Está frio aí fora, não? Entre, por favor...
A mulher não parava de falar e ele, já desconfortável e arrependido de ter ido ver a cigana, diminuía de tamanho naquela poltrona puída. A casa recendia a mofo e a incenso. A velha espalhava suas cartas pela mesa.
- Hum...Os Enamorados. Problemas no amor não é?
Embasbacado, o homem lhe disse:
- Sim, é... Mas...
- As cartas não mentem... Ah, a Imperatriz. Mulher muito bonita tem o senhor.
O homem parecia embaraçado.
- O Hierofante e o Enforcado... E não, oh, não... A Torre. Uma mulher muito bonita guarda o coração pra você. Mas você não pode ter essa mulher. Não, você não pode... E a Torre, ela lhes separará... Triste fim, eu lamento, triste fim...
- Mas o quê? Como assim... Bem, me perdoe, eu tenho que ir...
- Espera, moço. Eu ainda não aca...
- Eu nem deveria ter vindo aqui, eu vou embora...
O homem pagou à velha e saiu. Seu coração caminhava suspenso. As ruas já não lhe seguravam. Andava em transe sem saber para onde ia. Seus pés os levaram à porta de um botequim. Lá dentro uma mulher cantava:
“O amor é dos suspiros a fumaça;
puro, é fogo que os olhos ameaça;
revolto, um mar de lágrimas de amantes...”
Um sujeito embriagado esbarrou naquele homem de caminhar triste. Reconhecendo-o, o bêbado, envergonhado, pediu-lhe desculpas...
- Tudo bem, meu filho, pode ir em paz.
O bêbado ia andando, mas como se esquecesse algo, virou-se e disse:
- A sua bênção, padre Romeu.
E a resposta veio em uma voz sufocada, mergulhada em amargura e angústia.
- Deus te abençoe, meu filho. Deus abençoe a todos nós.
T.S.Siqueira