quinta-feira, 31 de março de 2011

Fugere Urbem

Para, pensa, pulsa
E promete, e procede, e progride
Assiste ao outdoor no coração de prédios
Vai, Babel dos povos e nações
Vai ser alguém na vida, em terras de lida, suor e solidão

Pandemônio de holocaustos 
Onde submergem seus nativos cativos
Devotos incautos
E pragmáticos sem dogmas
Fugindo do tráfego e do tráfico

Injusta, assusta, quem não acompanha o compasso
De teu samba, teu rock, teu pop hip-hop
No teu leito, o templo de Pan
É templo de Alah, Zeus, de Odin, Tupã,
E de todas as outras tribos que abdicam do penacho
Na transa transcedental de indistinguíveis fêmeas e machos

Condenados à demência que delimita distritos
Onde pretos e pobres não são bem-vindos
Condensados à grande massa anêmica
Do aborto gigante que se ergue
Assanha os céus e a tudo engole
E sapateia a ordem sob teu olhar
De mãe impiedosa no altar
Que é teu por direito, oh deusa Metrópole.

                                    T.S.Siqueira
Que nas torturas toda carne se trai
Que normalmente, comumente, fatalmente, felizmente,
Displicentemente o nervo se contrai

Com precisão
                                 Zé Ramalho

terça-feira, 29 de março de 2011

Dura Lex, Sed Lex

A placa sobre a mesa ainda estampava as letras garrafais douradas: DR. LEOPOLDO DE CASTRO MONTES. Doía creditar aquele como o seu último dia quarenta e dois anos depois de entrar pela primeira vez naquela sala. Os poucos fios de cabelo que lhe restavam pintavam branquejavam sua cabeça. As mãos rígidas e os braços violentados pela artrite já não lhe permitiam tocar o violino. Aos oitenta anos, era inapto para suas duas maiores paixões: a música e os tribunais.

O velho Castro Montes iria enfim se aposentar. Tanto a memória o traiu que já não podia mais seguir. Olhava desolado as caixas com seus livros, seu violino, seus pertences... Praticamente toda sua vida ali, espalhada pelo chão do escritório. Embalados para um adeus sem retorno. A primeira esposa morreu junto ao filho natimorto. Para a segunda, ele é que esteve morto toda a vida. Um divórcio redigido em mão própria.

No início, foi daqueles promissores advogados de sonho alto. "O céu é o limite." Nunca passou disso: uma promessa. Vieram as ofertas de dinheiro sujo, os acordos ilícitos, as propostas de trocas de favores e o Dr. Montes recuou. Condenou-se a décadas de reclusão longe, muito longe, do itinerário de sucesso que havia planejado um dia para si.

Manteve a vida modesta que os padres da eucaristia tanto lhe recomendavam. Era tido entre os colegas como o pavilhão moral da classe. Nunca souberam que a ética lhe valesse coisa alguma. Tinha medo. Qualquer risco sempre foi um preço alto demais para uma alma tão repleta de nulidades. Seu amparo eram os gritos magoados nas cordas do violino. Não foi amado pelas esposas, não teve filhos, os amigos eram mortos. Só lhe restou o velho violino que agora se negava a permitir seu desafino. 

Levantou-se da cadeira e empilhou todas as caixas ao lado da porta. Destrancou a penúltima gaveta da mesa: recolheu uns papéis velhos e a Smith & Wesson que uma vez comprara para se proteger durante os anos da repressão. A S&W ainda tinha as seis balas que ele pôs em 68. 1968: almas cheias de sonhos, cabeças ferventes de idéias. Para ele, 1968 nunca houve. Sua utopia era gasta. Resignou-se por anos e acomodou-se, até que a rotina padrão foi destronada pelo tempo e o mundo lhe desabou sobre as costas.

O velho revólver não estava mais carregado e o velho homem já estava morto. Cinco tiros indefectíveis. Um no violino, um na placa de inscrições douradas sobre a mesa. Uma bala na fechadura do apartamento da segunda esposa e dois tiros cravados no peito de uma mulher que se dizia, aos risos, ex-viúva. Castro Montes reservou a última bala para a sua cabeça. Pagou a uma prostituta e foi a um motel. Matou-se durante o orgasmo. Após oitenta anos de frustração, morreu com a satisfação estampada na cara.

                                                        T.S.Siqueira

Era Uma Vez Madrugada

Madrugada
O céu entorna anonimato
Sobre a noite que tombou seu véu

Poetas medíocres castigam seus dedos
Velhas sandias sussurram à escuridão seus segredos
Enquanto seus vizinhos do lado gemem baixinho

Dorme o sono dos justos o bom burguês
Na sua esquina, uma menor não entende francês
E o cliente procura outra no barzinho

Uma mãe sai de casa sem deixar rastro
Uma filha seduz o padrasto
Uma criança chora em uma casa vazia

Um avô tem o terceiro infarto
Outra mãe morre no parto
Outro filho para uma tia

Mulheres tristes velam seu marido morto
Um viúvo caminha pela casa absorto
O coveiro ronca sobre os jazigos

Gatos reviram lixeiras, cães uivam pra lua
No lixo, o jantar de um menino de rua
É partilhado com seus doze amigos

Alguns bêbados tropeçam em bandidos
Abatidos por outros bandidos
Na noite banal que sopra um beijo atrevido
E deixa a calamidade e o caos
Nos braços da alvorada.

Era uma vez madrugada.

                                     T.S.Siqueira

Outra Verona

Os sinos da matriz deram sua oitava e última badalada. Puxou o papel do bolso e conferiu novamente o endereço. Definitivamente era ali.
Bateu na porta. Duas. Três vezes. Uma velha surgiu à porta entreaberta:
- Madame Carmen?
- Sim, sou eu.
- Bem, eu gostaria de uma consulta e...
- Oh, claro. Entre, meu amigo. Está frio aí fora, não? Entre, por favor...
A mulher não parava de falar e ele, já desconfortável e arrependido de ter ido ver a cigana, diminuía de tamanho naquela poltrona puída. A casa recendia a mofo e a incenso. A velha espalhava suas cartas pela mesa.
- Hum...Os Enamorados. Problemas no amor não é?
Embasbacado, o homem lhe disse:
- Sim, é... Mas...
- As cartas não mentem... Ah, a Imperatriz. Mulher muito bonita tem o senhor.
O homem parecia embaraçado.
- O Hierofante e o Enforcado... E não, oh, não... A Torre. Uma mulher muito bonita guarda o coração pra você. Mas você não pode ter essa mulher. Não, você não pode... E a Torre, ela lhes separará... Triste fim, eu lamento, triste fim...
- Mas o quê? Como assim... Bem, me perdoe, eu tenho que ir...
- Espera, moço. Eu ainda não aca...
- Eu nem deveria ter vindo aqui, eu vou embora...
O homem pagou à velha e saiu. Seu coração caminhava suspenso. As ruas já não lhe seguravam. Andava em transe sem saber para onde ia. Seus pés os levaram à porta de um botequim. Lá dentro uma mulher cantava:
“O amor é dos suspiros a fumaça;
puro, é fogo que os olhos ameaça;
revolto, um mar de lágrimas de amantes...”
Um sujeito embriagado esbarrou naquele homem de caminhar triste. Reconhecendo-o, o bêbado, envergonhado, pediu-lhe desculpas...
- Tudo bem, meu filho, pode ir em paz.
O bêbado ia andando, mas como se esquecesse algo, virou-se e disse:
- A sua bênção, padre Romeu.
E a resposta veio em uma voz sufocada, mergulhada em amargura e angústia.
- Deus te abençoe, meu filho. Deus abençoe a todos nós.

                                                       T.S.Siqueira