de tantas maneiras de deixar o tempo passar, as minhas escolhas são sempre as erradas. você sabe que eu nunca fiz nada do jeito certo. o diabo escreve o torto nas linhas mais certas. a minha única reação a qualquer coisa ainda é mandar ir se danar. na boca há um protocolo padrão de frases fodidas pelo álibi que a gente criou para esquecer de sonhar.
eu ainda vou sozinho ao cinema em sessões vazias. eu ainda ouço sinatra e waldick na mesma playlist. ainda levo uma caneta em qualquer lugar que eu vá. bebo o mesmo café com leite empelotado. acho que casablanca é superestimado e que caeiro é o melhor heterônimo. tenho as mesmas certezas, mas me faltam as velhas dúvidas recorrentes.
de falar bobagem até as três da manhã, discutir a origem de tudo, explicar as razões da minha impaciência com super-heróis ou argumentar que uísque vai bem com qualquer coisa no universo. nunca houve consenso de porra nenhuma entre a gente. talvez apenas o jeito amuado e arredio. ou talvez nos livros trocados. os erros nas dedicatórias são vícios, mas não as escolhas.
dia desses, na fila do supermercado, senti um cheiro seu. aquele xampu enjoativo que me fazia repetir a urgência e a beleza que tinham os seus cachos curtos. deixaram um pote cair no chão empesteando o ar todo. tão banal que ninguém mais naquela fila deu atenção. a exceção é a minha mania de colecionar detalhes.
ainda escrevo muito para que ninguém leia. há uma dobra da verdade em tudo aquilo que faço.
fumo descontroladamente, encho a cara e sou inconsequente. tem sido a minha resposta pra tudo. meu desleixo é minha marca. o que determina o ritmo dos meus passos. do meu verso. meu verbo.
alice, não há palavra que eu escreva que não seja de amor.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
em cada grão de areia mora um milagre
é preciso ouvir as pedras e entrelaçar os cadarços da rotina
a felicidade, por sua vez, vive descalça
enterra os dedos na areia de beira de praia
mora um milagre na perene certeza do simples
t.s.siqueira
o micróbio insensato da felicidade assim quis
minúscula é a tradução dos encantamentos
a olho nu são invisíveis os operários do essencial desabrochado
minúscula é a tradução dos encantamentos
a olho nu são invisíveis os operários do essencial desabrochado
é preciso ouvir as pedras e entrelaçar os cadarços da rotina
um tropeço que role a vida abaixo numa escada espiral
desvairada nos tombos providenciais da poesia
a felicidade, por sua vez, vive descalça
enterra os dedos na areia de beira de praia
mora um milagre na perene certeza do simples
t.s.siqueira
sempre sonhei vida em meio a secura
à margem do mundo, conservo bem a minha loucura
escrevo cartas amiúdes tratando de perplexidade e fé
há uma rosa desperta a nascer sob meu travesseiro
engolindo seco, se alimenta de distâncias e reticências.
girando ao redor do mesmo lugar onde agora sou
estar longe é o esforço de negar o querer
quando se quer a esperança de se achar mais perto
brotam inexplicáveis exclamações na sola do pé
tão gasto como os sapatos é o tempo
quanto mais se vive, tanto mais se morre
um epitáfio prescrito em todas as testas
ciência maior que o mistério não há
no interrogatório das horas, no relógio a oração
haverá alguém imune ao desatino de viver?
t.s.siqueira
à margem do mundo, conservo bem a minha loucura
escrevo cartas amiúdes tratando de perplexidade e fé
há uma rosa desperta a nascer sob meu travesseiro
engolindo seco, se alimenta de distâncias e reticências.
girando ao redor do mesmo lugar onde agora sou
estar longe é o esforço de negar o querer
quando se quer a esperança de se achar mais perto
brotam inexplicáveis exclamações na sola do pé
tão gasto como os sapatos é o tempo
quanto mais se vive, tanto mais se morre
um epitáfio prescrito em todas as testas
ciência maior que o mistério não há
no interrogatório das horas, no relógio a oração
haverá alguém imune ao desatino de viver?
t.s.siqueira
sábado, 1 de novembro de 2014
tanto fez o que não era,
toda a vida a sua frente,
ávida de novos haveres,
livre de velhos pesares,
quis querer ser diferente,
distante de tudo que foi.
em rasgo riscado na pele,
a alma saltando-lhe fora,
tanto maltrato, foi embora,
sobrou pouco de poesia
insone nas rimas insanas,
sua exceção de utopias
de sempre se saber só,
e ser o que nunca quis,
a não saber o que se quer.
toda a vida a sua frente,
ávida de novos haveres,
livre de velhos pesares,
quis querer ser diferente,
distante de tudo que foi.
em rasgo riscado na pele,
a alma saltando-lhe fora,
tanto maltrato, foi embora,
sobrou pouco de poesia
insone nas rimas insanas,
sua exceção de utopias
de sempre se saber só,
e ser o que nunca quis,
a não saber o que se quer.
domingo, 28 de setembro de 2014
o poema não tem previsão de tempo.
chove sem forma, sem moda, estilo, maneiras
requebra em lama molhada, na terra batida
e assim regenera em todas as gentes um arco
que ilude quem sonha e os medos intimida
nos tímidos e incontáveis corações de beira
dos rios, de riso e pranto, prontos a desaguar
em tanta mágoa fermentada nos charcos,
em tanta água que corre sem certeza de chegar,
no que o peito, sem jeito, refeito desmonta
sem saber se o poema lhe será farol ou barco,
que no mar e no amar há o infinito na ponta.
chove sem forma, sem moda, estilo, maneiras
requebra em lama molhada, na terra batida
e assim regenera em todas as gentes um arco
que ilude quem sonha e os medos intimida
nos tímidos e incontáveis corações de beira
dos rios, de riso e pranto, prontos a desaguar
em tanta mágoa fermentada nos charcos,
em tanta água que corre sem certeza de chegar,
no que o peito, sem jeito, refeito desmonta
sem saber se o poema lhe será farol ou barco,
que no mar e no amar há o infinito na ponta.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
de que matéria vive o homem,
que labareda o consome
na centelha de todo o medo
que o faz esquecer da fome
diante de maior segredo?
que pesar lhe irrompe na vida,
sua existência encolhida,
ao deparar-se com o peso,
que brota em despedida,
de não se escapar ileso?
morre o homem desde cedo
quando escorre entre os dedos
o instante que o enternece,
ao notar o triste enredo,
quando não mais se reconhece?
com agouro e com angústia,
pode amar à altura de suas dores?
sem credo e sem remédio,
lhe dói o descompasso de amores?
é cínico ou cênico o homem
quando lhe rasga o abdômen
tudo aquilo que não tem nome
e que, dentro de si, some
quando resta só, o homem?
que labareda o consome
na centelha de todo o medo
que o faz esquecer da fome
diante de maior segredo?
que pesar lhe irrompe na vida,
sua existência encolhida,
ao deparar-se com o peso,
que brota em despedida,
de não se escapar ileso?
morre o homem desde cedo
quando escorre entre os dedos
o instante que o enternece,
ao notar o triste enredo,
quando não mais se reconhece?
com agouro e com angústia,
pode amar à altura de suas dores?
sem credo e sem remédio,
lhe dói o descompasso de amores?
é cínico ou cênico o homem
quando lhe rasga o abdômen
tudo aquilo que não tem nome
e que, dentro de si, some
quando resta só, o homem?
sexta-feira, 13 de junho de 2014
tratado de inutilidades
olhar para si mesmo, na mais vesga percepção sobre o fato de existir, é uma abertura que escancara nas vistas o nosso absurdo perante o mundo.
uma vez destampada, alguma coisa se perde para nunca mais.
e nesse limbo, qualquer grito gritado ecoa até o sem fim.
a maior solidão é a que chega despida e se veste nas trivialidades que nos fazem esquecer o inescapável dilema do que realmente somos e do que queremos ser.
desconheço a coerência e a verdade.
todo erro se recorta nas minhas inconsequências. não seria humano se não fosse assim. não seria sequer justo.
mas este lúcido sacrifício das palavras nunca me deu salvo-conduto.
e vez ou outra, atravesso as noites redigindo tratados dessas tantas inutilidades que nos tornam cada vez mais complicados e intragáveis.
me aferro a uma poesia problemática, esse idioma intraduzível que mora numa distante filosofia.
morro dessa sede que não se mata na cachaça.
em tantos complexos que vão do sexo para além dos nexos, há esse propósito inadiável de querer guardar o mundo em mim.
cedo a uma religião diária e faço do pouco o muito. ao menos tento.
boto o belchior pra cantar e ele me lembra que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza.
pois então que deixemos de coisas, cuidemos da vida, se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida (ou coisa parecida)...
uma vez destampada, alguma coisa se perde para nunca mais.
e nesse limbo, qualquer grito gritado ecoa até o sem fim.
a maior solidão é a que chega despida e se veste nas trivialidades que nos fazem esquecer o inescapável dilema do que realmente somos e do que queremos ser.
desconheço a coerência e a verdade.
todo erro se recorta nas minhas inconsequências. não seria humano se não fosse assim. não seria sequer justo.
mas este lúcido sacrifício das palavras nunca me deu salvo-conduto.
e vez ou outra, atravesso as noites redigindo tratados dessas tantas inutilidades que nos tornam cada vez mais complicados e intragáveis.
me aferro a uma poesia problemática, esse idioma intraduzível que mora numa distante filosofia.
morro dessa sede que não se mata na cachaça.
em tantos complexos que vão do sexo para além dos nexos, há esse propósito inadiável de querer guardar o mundo em mim.
cedo a uma religião diária e faço do pouco o muito. ao menos tento.
boto o belchior pra cantar e ele me lembra que eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza.
pois então que deixemos de coisas, cuidemos da vida, se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida (ou coisa parecida)...
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