quinta-feira, 20 de novembro de 2014

em cada grão de areia mora um milagre
o micróbio insensato da felicidade assim quis
minúscula é a tradução dos encantamentos
a olho nu são invisíveis os operários do essencial desabrochado

é preciso ouvir as pedras e entrelaçar os cadarços da rotina
um tropeço que role a vida abaixo numa escada espiral
desvairada nos tombos providenciais da poesia

a felicidade, por sua vez, vive descalça
enterra os dedos na areia de beira de praia
mora um milagre na perene certeza do simples

t.s.siqueira
sempre sonhei vida em meio a secura
à margem do mundo, conservo bem a minha loucura
escrevo cartas amiúdes tratando de perplexidade e fé
há uma rosa desperta a nascer sob meu travesseiro
engolindo seco, se alimenta de distâncias e reticências.
girando ao redor do mesmo lugar onde agora sou
estar longe é o esforço de negar o querer
quando se quer a esperança de se achar mais perto
brotam inexplicáveis exclamações na sola do pé
tão gasto como os sapatos é o tempo
quanto mais se vive, tanto mais se morre
um epitáfio prescrito em todas as testas
ciência maior que o mistério não há
no interrogatório das horas, no relógio a oração
haverá alguém imune ao desatino de viver?

t.s.siqueira

sábado, 1 de novembro de 2014

tanto fez o que não era,
toda a vida a sua frente,
ávida de novos haveres,
livre de velhos pesares,
quis querer ser diferente,
distante de tudo que foi.
em rasgo riscado na pele,
a alma saltando-lhe fora,
tanto maltrato, foi embora,
sobrou pouco de poesia
insone nas rimas insanas,
sua exceção de utopias
de sempre se saber só,
e ser o que nunca quis,
a não saber o que se quer.