sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Último Ato

A mulher no centro do palco mirava o público como quem procurava algo, e aqueles aplausos, todos aqueles aplausos que as paredes do teatro ecoavam, nos seus ouvidos eram zumbidos distantes. Beatriz acostumara-se o suficiente aos sorrisos da tragédia e às lágrimas da comédia para abstrair-se daquele lugar. Mas o que ela tinha visto mesmo?

Procurava entre os ternos e vestidos bem-cortados da platéia um indício de anormalidade que boiasse por aquele mar de trivialidades. Ora, afinal, o que lhe causara tanta angústia assim de repente? Como boa atriz, ela conhecia todas as emoções, todos os finais, felizes ou tristes. Provara da solidão, da felicidade, das lamentações e do amor no mesmo prato, no mesmo palco. Ela não iria sucumbir assim a qualquer coisa. Mas o quê? O que ela teria visto para afligir-se de tal maneira?

O pública esvaziava a sala e ia embora cochichando sobre aquela atriz esnobe, parada no meio do palco e indiferente aos espectadores que a ovacionavam. “No entanto, uma ótima atriz.” “Quanta vivacidade! Quanta veracidade!” “Você entendeu aquela pose estática no fim quando as cortinas caíram?”, “Será que faz parte da apresentação?”.

O velho teatro era o único que não se surpeendia. Escutava os cochichos dos homens e mulheres saindo e prendia um sorriso sardônico, ainda que um sorriso infeliz. O teatro sempre lamentava quando aquela cena se repetia, aquele desagradável momento em que ficção e realidade se misturavam, e as máscaras, as verdadeiras máscaras, caíam. Sentia pena de mais um que ensandecia por ali e acompanhava ressentido o dramático desfecho do último ato na história da vida de Beatriz.

No salão vazio, ela encarava fixamente as poltronas, como que as torturando e interrogando com apenas aquele olhar. E então ela descobriu-se sem saber o que fazia ali. O pânico era implacável: encenara toda a sua vida. O palco foi sua vida, e sua vida, por sua vez, era um palco. Era a hora de tirar toda a maquiagem, de desencarnar de vez da teatralidade e de cair no mundo real.  Mas tinha algo errado: o camarim também era um palco, a platéia era um palco, todo o teatro e todo o mundo revelava-se um palco.

Encarava-se no espelho, mas de repente não tinha rosto, não tinha identidade. E ante o desespero da sua nulidade, viu o seu rosto indo embora de sua memória, fugindo dali junto com o público, quando a peça acabou. Estava admiravelmente abandonada por si mesma. E mesmo aquele rosto, que ela chamava de seu, era mais uma das máscaras luciferinas manipuladas pelos desígnios da sina humana de nascer, crescer, procriar e morrer.

Sentia o choro entalado na garganta, mas desesperava-se, pois não tinha olhos que fossem seus para chorar. Sua consciência, sussurava ao seu ouvido a clamorosa pergunta que todo homem se exime de fazer: “To be or not to be? To be or not to be? That is the question”.

O velho teatro, gritando da sua prisão interior, respondeu-a com toda a sua humanidade: To be! Be atriz!

Com batom vermelho ou sangue do próprio punho, o invólucro humano de carnes e ossos escrevia repetidamente no espelho um trecho, apenas um trecho, do seu monólogo perpétuo, que perturbava a todos os outros seis bilhões de atores daquela companhia teatral

“Em que espelho ficou perdida a minha face?”

                                                                              T.S.Siqueira

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

já me matei faz muito tempo 
me matei quando o tempo era escasso 
e o que havia entre o tempo e o espaço 
era o de sempre 
nunca mesmo o sempre passo 

morrer faz bem à vista e ao baço 
melhora o ritmo do pulso 
e clareia a alma 

morrer de vez em quando 
é a única coisa que me acalma



                     Paulo Leminski

...Luiza!

...o teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza.
                     Tom Jobim

anseios

Caminho rumo a caminhos que me descaminhem
À insegurança de um frio na barriga,
Ao último fôlego de quem desmaia

Procuro o melaço de alegria
Em um beijo salgado de praia
Que oblitere o amargor da solitude.

Desejo o fogo e o frescor
De uma paixão de juventude
Que ressuscite obsoletos corações.

Quero esbarrar no véu de luz
Que descortina o breu das ilusões
E me encantar como quem canta sorrisos.

Quero me entregar sem disfarces,
Sem máscaras, conselhos ou avisos.
Viver o inexplicável, o inadmissível.

Procuro carinho nos olhos,
Afago nas mãos e ao peito alívio,
No livre sacrifício de amizade

Procuro quem queira ocupar-se
No emprego da felicidade
Há muito esquecida...

Procuro um amor que dure uma vida.

                              T.S.Siqueira

love is all "we" need

Dê-me tudo mesmo quando não resta mais nada
Deixe-me louco por você quando nada estiver bem
Faça o amanhã quando o hoje estiver chato
Que eu farei o mesmo

"Je t'aimerai qu'importe le prix"

                   Comme un fils - Corneille

Respostas Secas

Não há mística razões dos porquês
Acaso não vês
O interino conteúdo da moldura
Que perdura
Em largos instantes
Avante
Consciente do fato
Que em um quarto
De hora ou de eternidade sua vida
Perdida
Estará no vão
Que não
Nos oferece outra sorte
Morte
Sem qualquer desacato
Contrato
Sequer lido
Mas vivido
Em desespero nato
Pois do seu retrato
Só restará a memória
Ecos na história...

                               T.S.Siqueira

Prece

Poesia de sarjeta
Peça um coração aos olhos que te vêem...
E vai!
Vai, poesia! Divaga e desagua lenta
Um pouco de alento
Às silenciosas solidões,
Aos ecos de mentiras sobressalentes

Ilude a nós, os Quixotes de noites bêbadas.
Gira devagar, maquiavélico "moulin rouge"
Esmaga, esmigalha, tritura a memória

Fragmentai-nos, monumental moinho de ventos,
E depois recolha-nos ao intrigante trigal de pensamentos
Que é leito deste lirismo parvo, ó poesia!

Recomponha, reconstitua, reconstrua,
Crescei-me
Elixir de ficções
Soberana de paixões
Meu sereno serendipismo

                                  T.S.Siqueira

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

a szerelem

Dimmi perché quando sento una canzone
Sento un suono, un canto
Tu mi vengono in mente
Dimmi perché se sei in firmamento
Nelle stelle, non è presente
Dimmi perché non dimenticato un giorno qualsiasi
Che il mondo è nulla senza di te
Se tu sei nei fiori, nel cielo, nel mare...
Sorridere? Ah! Non posso e tu sai perché...

          Autor Desconhecido

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Specchio

No charco de respostas inconclusivas
Escuto as vozes deste silêncio que morre em mim
Suspeito de um cerebralismo inato
E acuso a falta de tato
Destes sorrisos insensatos
Que precedem o cadafalso das ilusões

Este eu que não conversa comigo
Neste diálogo inexistente de um existencialismo impuro
Penso e logo desisto
A covardia me impõe seus ritos
Meus amores perecem hirtos
Congestionando o tráfego das solidões

Palavras perdulárias de má fé
Tentam fugir e anunciar meu naufrágio
Mas se resignam ao meu severo adágio
De melancólico pedido de ajuda gutural
De gritos mudos de que alguém me cure deste mal...

                                      T.S.Siqueira

terça-feira, 10 de agosto de 2010

triste.

triste é saber que ninguém pode viver de ilusão
que nunca vai ser 
nunca vai dar
o sonhador tem que acordar
                       Tom Jobim

domingo, 8 de agosto de 2010

Entre o Mar e Eu

Vagalhões, quebrem aos recifes
Quebrem senhores corações cotidianos
E que o mar arrote satisfeito
Os desgostos, dissabores, dissolvido em teu leito
          De bardos medíocres e imperfeitos.

Vaguem vagalhões, rogo,
E guiem minhas lágrimas dissolutas,
Nestes vagos, complicados e densos caminhos,
Da fascinante opereta das marés
         Ao lodaçal disforme de um convés.

Vagalhões, suntuosos vagamundos,
Afoguem de beleza, engasguem de morte,
Estes vagabundos que sufocam nas praias,
Inebriados pelo cheiro salgado, místico, reconfortante
          De utopias navegantes.

Valentes vagalhões, suplico:
Metralhem as costas pesadas, as pulsações covardes,
Quebrem-me as pernas e me façam fênix,
No batismo impuro de olhos salinos e pés sobre a areia
          Onde minh'alma corsária passeia.

Choram os vagabundos.
Poetas putrefatos à beira-mar.

[Esta mão, pena de poeta decrépito
Pluma de coroa fúnebre
Esta mão:
Sinto-a em decomposição]

O mar sussura-me os sacrifícios dos tempos,
Sibila saudades, serena-me o peito
E na surdina, surrupia meus sacrossantos segredos.
                                                
                                     T.S.Siqueira

Embarque

Reticente e hesitante. Não é muito do meu agrado exposição exagerada. Aprecio mais o charme que a sensualidade em si (não que os dois estejam necessariamente separados, mas desta maneira é mais clara o entendimento). Por sinal, adoro aquele jogo de esconde-mostra (Ah, Bettie Page, por que morrestes se eternizada em meus sonhos?). Mas o renitente trabalho das mãos pedia espaço, e eu, "Por que não?". Assim, eu não espero reconhecimento, e apenas compartilhar idéias, ideais e trivialidades.

Pt, saudações!