segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Arcádia

O lusco-fusco surgia no céu do final da tarde e a cadeira de balanço rangia. Era assim todos os dias. Os cabelos brancos se assentavam no encosto da cadeira e farfalhavam, bagunçados, ao sabor da brisa. Não demorava muito, vinha o menino e sentava no seu colo. As pernas ossudas e magras eram desconfortáveis, mas o guri já se acostumara.

Depois de escalar as pernas e acomodar-se, recostava a cabeça no peito que piava cansado. Não tardava muito e ele dormia de olhos abertos. Uma das mãos enrugadas passeava pelos cabelos negros.

A orquestra da tarde dava seu concerto: os pássaros assoviavam com o sussurro dos ventos, o menino ressonava e o velho, vez em quando, marcava o ritmo ao encostar o alvo bigode na cabeleira preta com o estalido de um beijo. Os dois não conversavam, apenas dividiam a beleza daquele fugidio instante. Aliás, quase nunca se falavam porque nos silêncios se compreendiam, se contemplavam e se completavam. O silêncio sempre soube falar mais que a palavra.

O menino pensava o velho como árvore e fazia ali sua morada. O corpo curvado, um tronco feio, retorcido e rígido, mas ainda sustentava toda terra. A cabeça branca, uma copa que ostentava as jabuticabas pretas que olhavam a todos com doçura. Nos bigodes, um ninho atravessado pelo tempo e agora vazio. No peito, travesseiro dos sonhos, um pássaro trabalhava intermitente. Na aflição de quando o pássaro falhava, no alívio da sua volta ao trabalho: o menino sabia que chegaria o dia que ele iria embora de vez. E chorava. Escorrendo pelo peito a água de seus olhos. E regava a velha raiz que escorava a sua paz.

O velho flutuava distante. O vento ruidoso nas enormes ventas o levava longe naquele mesmo lugar. Os olhos pretos retintos pareciam duas fendas de onde se via o interior do seu interior. Miravam o horizonte, mas contemplavam dentro de si mesmo a generosidade da vida que permitia a felicidade de oitenta anos com apenas uma cadeira de balanço e um sorriso de oito.

Pendendo de um lado ao outro, misturavam-se as infâncias: aquela, dos dias, e a infância da verdade, nutrida na força de se entender efêmero e perene perante a insignificância das mortalidades.

Naquele momento em que o sol se punha e a noite chegava, naquele lugar no meio do nada, ali estava tudo. Ali era o mundo. O menino e o avô do menino.

                                                                                     T.S.Siqueira



Casulo

Meus desencontros querem se encontrar
E este sorriso já não os seguram.
Vou-me embora sem adeus.

                                  T.S.Siqueira