segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

a palavra é uma seta, disseram-me. uma vez lançada, corre seu alvo e não retorna nunca ao seu lugar. contudo, setas tão furiosas são nos seus propósitos que pensei mais gentil afinal tratar de palavras que voam. pois que quantas delas sem acaso, sem caminho, não estão por aí a procurar onde pousar? capturar seu sentido é veemência de caçar contextos e desviar dos desentendidos.

pra mim, os significados vão se explicando melhor então nas insignificâncias que pululam fora das acepções. no enquadramento dos retratos há um mundo inteiro a se perder por fora da moldura. em função de compreender o que existe no seu entorno, tome-se como centro, portanto, o que nunca esteve ali. o vazio sempre nos fala. há sempre um mundo por dentro de mundos a se fixar nas ausências. um livro de palavras não escritas que a gente esquece de lembrar.

ouvi dizer que quando uma perna é amputada, quem teve a infelicidade de perdê-la, de uma certa forma, ainda a mantém. uma extensão de si inexistente que ainda dói. como uma negação do que partiu, o vazio sempre reclama. que a linguagem do que falta quase sempre é a dor. um misto de horror e fascínio subsiste nessa ambiguidade do que está e não-está em nós. a medicina decidiu chamar a isto um membro fantasma. o português lhe nomeou saudade.

há coisas que estão para além dos sentidos. simples. deus é o verbo e inda assim sua voz jamais será ouvida. aquela cena final da trilogia dos corleone. pacino gritando suplantado pelo silêncio. rasgando a lírica. e quem ouve ali o intermezzo da ‘cavalleria rusticana’ guarda uma lágrima por um vazio que não encontrou mais espaço dentro de si. é da tragédia italiana desaguar em ópera ou vendetta. o que é atroz haverá mesmo de se rever em beleza, em afronta, em depois.

lendo das coisas onde a poesia não é óbvia, um alemão me assevera que comunicação é mesmo coisa improvável. doido é a gente que insiste. e como dói esse insistir. este mundo que nos é ininterruptamente amputado. das palavras mal ditas, negar a tristeza caudalosa que remanesce é tolice. mas da ausência legada, ao menos o espaço para gestar dias mais bonitos. que o vazio é também potência de se construir. que ‘é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar’.

t.s.siqueira