quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

nós, os disfuncionais. os descendentes de ninguém. nascidos do desajustado desencontro entre o inútil e o utópico. melancólicos profissionais. embusteiros na arte do real. realezas da negação da razão. os que bebemos o mundo em futuros. que tudo que é desesperada tentativa de imediato já anunciou que vai embora. 

hipocondríacos do sarcasmo e da solidão. o drama diário de estar sempre por um triz. personagens de woody allen perdidos em algum filme do kubrick. estelionatários da dor. especialistas do erro. corações com fluxos sanguíneos invertidos. retraídos nos buracos das próprias contradições. até a vida vir dezembrar o espírito. somos ateus em oração.

nós, os desajeitados a tropeçar nas próprias palavras. íntimos de uma cínica timidez. socialmente inadaptados. incomunicáveis. indecentes. inabitáveis. sentados à beira-mar ou bêbados à beira do abismo. deitados nos umbrais das igrejas. ouvindo o ruído dessas coisas pequenas do chão perto da música. 

nós, sentimentalistas natos. portadores da delicadeza. atravessados na fila do amor. somos essa gente de revisitar uma paixão diferente a cada dia. com más intenções e toda a intensidade. os que rasgam a si mesmo, no ontem hoje sempre, para recriar na ferida interna uma intranquila certeza onde brota um girassol. 

nós, que às vezes, a todo o tempo, somos humanos. estranhamente humanos.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

alguma curva do caminho

passeio os olhos pelo teto como se esperasse ler acima de onde estou qualquer solução-janela aberta para outros horizontes. como se o mesmo teto, não fosse mais hora, menos hora, desabar sobre mim. deve ser a terceira vez em que eu guardo algum medo de deus.

a primeira, aos nove, ao ler o livro de apocalipse. tremia com o mistério das sete estrelas, sete castiçais, sete igrejas, sete selos. só anos depois viria a saber que sete era o número divino. teria todos os motivos pra duvidar.

aos onze, a segunda, foi também primeira. inaugurei sentir o cheiro das flores de um velório. qualquer crisântemo branco me repugna até hoje. eram os cabelos brancos da mãe do meu pai. o corpo embaixo da terra. era dia do meu aniversário.

aos vinte e dois, quando pergunto por deus ouço um silêncio sepulcral. grito e, à exceção do vento balançando as cortinas do quarto, nada mais me responde. não há medo maior que estar sozinho nesse mundo.

atônito, viro o pescoço de um lado para o outro como se tentasse mirar o quanto do que sou tem estado à deriva. no meu egoísmo encontro pouco lugar pra enterrar minha cabeça longe de mim. sei muito pouco o que os outros ouvem, o que os outros dançam, o que os outros amam. e mesmo sem essa presença diária, sem ter a pele perto da pele, tudo que é humano ainda me incomoda, me atordoa e me dói.

clico em várias coisas na esperança de que a tela do computador desvie a atenção. abro o facebook e ele me pergunta: no que você está pensando? ninguém morre aos vinte anos. um paralelepípedo entalado na garganta. a morte é feia. obscena. um nocaute filho-da puta a nos deixar desorientado. ninguém morre aos vinte anos. no auge da sua curvatura, no maior tamanho do seu sorriso, a vida se obriga a deixar de existir. ninguém morre aos vinte anos.

desço até o lobby pra acender um cigarro e os meninos do 302 estão numa rodinha de violão tentando impressionar a filha da síndica. alguém puxa "dezesseis" e eu canto baixinho com eles. "giz", "la nuova gioventú", "daniel na cova dos leões". os meninos são bons. e quando vem o coro de "somos tão jovens',  duas ou três lágrimas renitentes teimam em cair.

revejo em contornos a parcela divina que cada um traz nas suas intermitências. religião mesmo é o amor. mesmo sem remédio para um coração dilacerado. mesmo sem perdão para uma alma atrofiada. eu só escrevo para não morrer dentro de mim. não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.