A mulher no centro do palco mirava o público como quem procurava algo, e aqueles aplausos, todos aqueles aplausos que as paredes do teatro ecoavam, nos seus ouvidos eram zumbidos distantes. Beatriz acostumara-se o suficiente aos sorrisos da tragédia e às lágrimas da comédia para abstrair-se daquele lugar. Mas o que ela tinha visto mesmo?
Procurava entre os ternos e vestidos bem-cortados da platéia um indício de anormalidade que boiasse por aquele mar de trivialidades. Ora, afinal, o que lhe causara tanta angústia assim de repente? Como boa atriz, ela conhecia todas as emoções, todos os finais, felizes ou tristes. Provara da solidão, da felicidade, das lamentações e do amor no mesmo prato, no mesmo palco. Ela não iria sucumbir assim a qualquer coisa. Mas o quê? O que ela teria visto para afligir-se de tal maneira?
O pública esvaziava a sala e ia embora cochichando sobre aquela atriz esnobe, parada no meio do palco e indiferente aos espectadores que a ovacionavam. “No entanto, uma ótima atriz.” “Quanta vivacidade! Quanta veracidade!” “Você entendeu aquela pose estática no fim quando as cortinas caíram?”, “Será que faz parte da apresentação?”.
O velho teatro era o único que não se surpeendia. Escutava os cochichos dos homens e mulheres saindo e prendia um sorriso sardônico, ainda que um sorriso infeliz. O teatro sempre lamentava quando aquela cena se repetia, aquele desagradável momento em que ficção e realidade se misturavam, e as máscaras, as verdadeiras máscaras, caíam. Sentia pena de mais um que ensandecia por ali e acompanhava ressentido o dramático desfecho do último ato na história da vida de Beatriz.
No salão vazio, ela encarava fixamente as poltronas, como que as torturando e interrogando com apenas aquele olhar. E então ela descobriu-se sem saber o que fazia ali. O pânico era implacável: encenara toda a sua vida. O palco foi sua vida, e sua vida, por sua vez, era um palco. Era a hora de tirar toda a maquiagem, de desencarnar de vez da teatralidade e de cair no mundo real. Mas tinha algo errado: o camarim também era um palco, a platéia era um palco, todo o teatro e todo o mundo revelava-se um palco.
Encarava-se no espelho, mas de repente não tinha rosto, não tinha identidade. E ante o desespero da sua nulidade, viu o seu rosto indo embora de sua memória, fugindo dali junto com o público, quando a peça acabou. Estava admiravelmente abandonada por si mesma. E mesmo aquele rosto, que ela chamava de seu, era mais uma das máscaras luciferinas manipuladas pelos desígnios da sina humana de nascer, crescer, procriar e morrer.
Sentia o choro entalado na garganta, mas desesperava-se, pois não tinha olhos que fossem seus para chorar. Sua consciência, sussurava ao seu ouvido a clamorosa pergunta que todo homem se exime de fazer: “To be or not to be? To be or not to be? That is the question”.
O velho teatro, gritando da sua prisão interior, respondeu-a com toda a sua humanidade: To be! Be atriz!
Com batom vermelho ou sangue do próprio punho, o invólucro humano de carnes e ossos escrevia repetidamente no espelho um trecho, apenas um trecho, do seu monólogo perpétuo, que perturbava a todos os outros seis bilhões de atores daquela companhia teatral
“Em que espelho ficou perdida a minha face?”
T.S.Siqueira