Contudo, os caminhos não são nunca retilíneos segmentos. Nas curvas e desvios, nos atalhos desse desdestino só há o escarnecer, a gastura e a ferida. O acaso empurra todos ao abismo da drasticidade e revela os homens que caminham cegos sem consciência do que lhe guarda no amanhã.
Foi quando lhe explicaram que a esperança é uma velha sandia que fabulava ilusões nos parapeitos das janelas enquanto a morte tinha preguiça de seguir em seu encalço.
Entre Belchiors e Beauvoirs, optou então por uma cínica filosofia.
Naquela manhã não foi trabalhar. Fez a barba e quando um filete de sangue escorreu no canto da boca, provou vigorosamente o sabor metálico. Desenferrujava as engrenagens e desparafusava as ideologias. Cansara de ser máquina do sempre. A severa rota enfim cedia aos caminhos dos desvios.
O casal de velhos lá de baixo brigava e xingava mais uma vez. A ninfa promíscua do apartamento de cima não segurava seus orgasmos e gemia despudoradamente. O vizinho do lado ouvia Verdi no máximo volume para calar as verdades. "Que vida extraordinária!". E esboçava um sorriso sardônico de um prazer descoberto na sujeira. O Dies Irae entoado nas paredes não poderia ser mais perfeito.
Pôs-se a caminhar entre as ruas da cidade. Era apenas mais um. Apenas mais um rosto.
Mas dentro de si suas entranhas queimavam. A alma em combustão. Naquele dia decidira abandonar a orquestra da certeza e da harmonia. Destronar o bom moço e arrancar-lhe os troféus. Vivia a erupção que lhe arrasara a espinha. Mandou à danação as liberdades românticas, as burrices desinteressadas e as exclamações amistosas.
Resolveu que talvez devesse compor também um hino de fúria. Com a fúria e o fogo que o consumia cuidaria de carregar tudo à desordem, ao desassossego e à disritmia.
O fogo que tudo purifica, em seu solene silêncio, haveria de consumir o mundo.
T.S.Siqueira
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