meus diálogos são assim: conversas comigo mesmo para entreter o silêncio.
falar não é comunicar. maldito seja quem diabos inventou isso!
por (in)segurança, meus estribilhos são todos mudos.
à margem do mundo, sou o filho postiço de gente que não quis me adotar.
de tempos em tempos, nêmesis me faz lembrar dessa minha condição de desencontrado.
aí é pra emborcar com o que não tem mais jeito.
meu desassossego é constante (e desde que me apaixonei por essa palavra com o pessoa há cinco anos, ela não me abandonou mais).
não entendo.
vejo tantas outras pessoas passando por cima de suas agruras. nunca há muito o que temer.
(ou talvez a grama do vizinho é que realmente seja mais verde).
pra não abrir mão de um desdenhoso clichê, eu não faço a menor idéia do que eu tô fazendo com a minha vida.
eu não sei até onde vai essa utopia soçobrante.
mas em verdade, tudo o que não sei preencheria as estantes da biblioteca de alexandria.
assim, esse quase nada.
essa é minha lira dos vinte anos.
mesmo não me crendo mais "sem sangue nas veias, com nervos de aço".
e de tanto eu, tem vezes que sinto chegar um basta, um morrer que pede para se sentir menos só.
e a bomba estoura nessas palavras de melancolia confessional.
sou estagiário da dor.
macroespecialista do erro.
um vácuo sugando as luzes que incidem aqui.
seria pecado apontar o dedo contra o olimpo e queixar-se da vida.
as oportunidades têm chegado, mas os equívocos têm sido maiores.
a gente é tão babaca que já não se apercebe.
e olhando pelo retrovisor, eu penso se não é a alma que é pequena.
sim e não são respostas tão poucas pra se decidir uma vida. e é só o que nos sobra.
não, não sou ídolo de ninguém.
sim, eu já deveria ter aprendido.
este ainda sou eu.
lento, piegas, egoísta, cinzento.
arrogante demais pra ouvir alguém além do próprio ego.
e frágil sem se dar conta das suas fissuras.
afogado em trabalho pra esquecer o essencial.
arruinando o que há ainda de sagrado.
dessa gente que "fala demais por não ter nada a dizer".
alvy singer, joel barish, rick blaine...
talvez eu esteja compondo o meu personagem.
meu retrato de sarcasmo e solidão.
(enquanto uma agonia desconhecida rói e arranha meu esôfago todo dia)
essa cidade me golpeia.
atravessa a carapaça.
o mundo é cruel.
sozinho.
pra nascer e secar.
um gosto frio de nunca.
essa cidade ainda me afasta, me aparta, me mata.
houve um tempo em que convivi bem comigo mesmo.
mas agora sou inadaptado.
sou regalo dos injustos.
complexo sem fim.
torneira de risos amarelos ao amanhecer.
pensei em fugir.
o escapismo é sempre uma ilusão dos covardes.
qualquer lugar onde não seja tão fácil se sentir mal.
um refúgio em montmartre com um sorriso de amélie.
duas doses de whisky com um amigo que compreenda seu discurso.
porque eu não tenho mais casa.
não me pertenço e pertenço a lugar nenhum.
nas minhas preces, peço:
salva-me, salvador.
talvez ainda haja esperança para os desesperados.