sábado, 5 de outubro de 2013

moças de maio

o teu arrepio rodopia
gira cabeça e mundo
guarda caminho fundo
trilha de lábios e dedos
de ventre e dos pelos
mapa do rasgo da pele
de tortuosos segredos
paisagem, paragem, miragem,
a mercê de um apelo final
um sol que acorda, acende e arde
e lambe o céu em seu sinal
chama que o corpo desperta
partindo em sua defesa
e aparta as coxas
e encaixa as pernas
a uma presa tesa
abafa um riso baixo
um outro pecado frouxo
eixo a dançar convexo
em anexo ao seu sexo
em murmúrios trêmulos
laçando o silêncio
lançado em ouvidos
num grito indecente
lavrando ruídos
perdidos na noite
a procura da gente.

domingo, 14 de abril de 2013

espinho e flor

danço no sem música do meu carnaval fora de hora
ando recolhendo os cacos e soltando serpentinas
bato continência ao futuro e sento praça.
tiro do cabide e vai na cara uma graça amarela
manhãs de abril, de mornos sussurros e beijos bem-vindos.

vento sereno me aparta qualquer veneno.
e sei: de calor e vontade fugaz não se corre atrás
salguei minha tristeza no pranto do atlântico
e no mais a mais, ando por temperar a existência
juntando paz na melodia da ternura.

ind'assim, eu rio com largura em curvas desoladas
desse rio que passou em minha vida
(salve paulinho, que é esse cabedal que me salva
de me afogar em prosa, embriagar desnecessidades)
cuido apenas de jantar os delírios

anuncio o meu samba lá nas meninas gerais
as ruínas alvissareiras pra quem um dia se perdeu,
a doença que me aflige é por querer amar demais,
se é cena, se é sonho, se é sina ou se é ela
a pedra primeira atire quem nunca ergueu a própria cela

perpétua suspensão pra qualquer dor desperta
acordai os sorrisos e os empurrem aos caminhos
na pouca elegância que me escapa em palavras 
abismo raso à espera de incautos
i must be a lover.

t.s.siqueira

quarta-feira, 10 de abril de 2013

pequeno tratado de remendos amorosos.

há uma confluência no encontro de dois olhares que guarda muito mais que o mero relance do que se deixa espelhar. guarda uma história. o coração trabalha mais rápido, pulsa na ponta dos dedos, passeia na boca do estômago e brinca nos cantos da boca em um sorriso sem graça. desses momentos de êxtase e medo. de sentir vibrar o pensamento e suplicar o abandono da razão. se afogar a fundo, se afrouxar sem afronta.

mas nem sempre letra e música se harmonizam. na incompletude do sentir, há perfeições que se anulam. e a lei de gravidade do espaço e dos fatos assegura então o chão embaixo dos pés. o tempo é implacável e destrói qualquer estrutura mal-armengada, amor mal-resolvido, história sem desenlace. no vazio de hesitar, vai o instante carregado sem remorsos. sem melancolias hiperbólicas. sem dramalhão histriônico. porque a todo tempo morrem prematuros esses fabulosos romances que não são.

e na ressaca do que não existe para além das cabeças, há até felicidade em saber-se triste também. se descobre que há sentido tanto na solidão como na multidão. esse gosto agridoce de que viver é um encargo, mas é uma dádiva estar vivo. de que alegria se faz também com os escombros do que já foi.

desses amores deslocados subsistem esperanças inacabadas. na esquina dos destinos, tudo se cura. basta apenas a inatacável possibilidade de que o mundo ainda é possível. e de resto, viver. fé é poema em duas letras. medo mesmo é de se negar a vida e seus sobressaltos. em todos os dias é preciso se apaixonar.

t.s.siqueira

sábado, 16 de março de 2013

ah, se já perdemos a noção da hora...

meu segredo esbarra na barra de sua saia,
não saia de mim assim, não saia,
que quando clareia, minha felicidade repica,
quando no acaso dos teus olhos, meu riso faísca,
o que é amargo brevemente se cura,
espalma essa loucura de dias doentes,
espalha seu perfume, sua pétala nesse lume,
que lhe coroa moça, menina, mulher.

doeu a demora de notar as idiossincrasias serenas,
mas agora, meu ofício de navalha, ponteiro e pena,
descansa na praia sem discursos aflitos,
seus pés descalços a desenhar um poema bonito,
a pôr em em brasa o medo de novos erros,
e o que brota em mim é a teimosia arredia
desse meu "deixa estar" que hoje pede
esse teu alguém para chamar de lar.

viajo em outro estado que me arrebata,
velejo no vão de um oceano você,
há um perfeito conjunto de defeitos,
que o passado passo apressado nem imagina,
meu canto de paz morena, minha menina,
de sorrir obtuso a cada tristeza estreita,
toda beleza no teu jeito de sofrer o mundo
e dizer calada que a vida é desobediência.

troco as pernas na desordem de quem anseia
inundação tranquila a carregar de maré cheia
minha ríspida timidez de sonho alto,
a confundir nossos nomes nas tantas letras
de um infinito de palavras que queima,
e teimo: tão mal o teu mel, em tristes versos,
são cartas roucas sem nenhum endereço,
sem legar adeus à renúncia do "te espero".

t.s.siqueira

quinta-feira, 7 de março de 2013

Eu sou o ouro em seu brasão

Não sou escravo de ninguém,
Ninguém é senhor do meu domínio.
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho,
E temo o que agora se desfaz.
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas,
Por Deus nunca me vi tão só,
É a própria fé o que destrói,
Estes são dias desleais.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão.

Legião Urbana - Metal Contra As Nuvens

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

nós, os desajustados

meus diálogos são assim: conversas comigo mesmo para entreter o silêncio.
falar não é comunicar. maldito seja quem diabos inventou isso!
por (in)segurança, meus estribilhos são todos mudos.
à margem do mundo, sou o filho postiço de gente que não quis me adotar.

de tempos em tempos, nêmesis me faz lembrar dessa minha condição de desencontrado.
aí é pra emborcar com o que não tem mais jeito.
meu desassossego é constante (e desde que me apaixonei por essa palavra com o pessoa há cinco anos, ela não me abandonou mais).
não entendo.
vejo tantas outras pessoas passando por cima de suas agruras. nunca há muito o que temer.
(ou talvez a grama do vizinho é que realmente seja mais verde).
pra não abrir mão de um desdenhoso clichê, eu não faço a menor idéia do que eu tô fazendo com a minha vida.
eu não sei até onde vai essa utopia soçobrante.
mas em verdade, tudo o que não sei preencheria as estantes da biblioteca de alexandria.
assim, esse quase nada.
essa é minha lira dos vinte anos.
mesmo não me crendo mais "sem sangue nas veias, com nervos de aço".

e de tanto eu, tem vezes que sinto chegar um basta, um morrer que pede para se sentir menos só.
e a bomba estoura nessas palavras de melancolia confessional.
sou estagiário da dor.
macroespecialista do erro.
um vácuo sugando as luzes que incidem aqui.

seria pecado apontar o dedo contra o olimpo e queixar-se da vida.
as oportunidades têm chegado, mas os equívocos têm sido maiores.
a gente é tão babaca que já não se apercebe.
e olhando pelo retrovisor, eu penso se não é a alma que é pequena.
sim e não são respostas tão poucas pra se decidir uma vida. e é só o que nos sobra.
não, não sou ídolo de ninguém.
sim, eu já deveria ter aprendido.

este ainda sou eu.
lento, piegas, egoísta, cinzento.
arrogante demais pra ouvir alguém além do próprio ego.
e frágil sem se dar conta das suas fissuras.
afogado em trabalho pra esquecer o essencial.
arruinando o que há ainda de sagrado.
dessa gente que "fala demais por não ter nada a dizer".

alvy singer, joel barish, rick blaine...
talvez eu esteja compondo o meu personagem.
meu retrato de sarcasmo e solidão.
(enquanto uma agonia desconhecida rói e arranha meu esôfago todo dia)

essa cidade me golpeia.
atravessa a carapaça.
o mundo é cruel.
sozinho.
pra nascer e secar.
um gosto frio de nunca.
essa cidade ainda me afasta, me aparta, me mata.
houve um tempo em que convivi bem comigo mesmo.
mas agora sou inadaptado.
sou regalo dos injustos.
complexo sem fim.
torneira de risos amarelos ao amanhecer.

pensei em fugir.
o escapismo é sempre uma ilusão dos covardes.
qualquer lugar onde não seja tão fácil se sentir mal.
um refúgio em montmartre com um sorriso de amélie.
duas doses de whisky com um amigo que compreenda seu discurso.
porque eu não tenho mais casa.
não me pertenço e pertenço a lugar nenhum.
nas minhas preces, peço:
salva-me, salvador.

talvez ainda haja esperança para os desesperados.




segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

um gauche na vida

[...] Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração. [...]

Drummond