sexta-feira, 9 de novembro de 2012

setenta e sete

somos todos devedores. viver é um empréstimo e pagar é constância reveladora do inalterável egoísmo que sacrifica e salva a espécie. nos é cobrado com a carne podre que se desintegra aos poucos. e lá no fim, quando desgastado o limiar dos olhos, quando prestes a apagar o candeeiro que ilumina aquela parcela de mundo que nós conhecemos, vender a alma ao diabo já não parece uma proposta tão aterrorizante. "somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro". nêmesis é implacável e a morte é sua imediata companheira. riem-se da finitude e da falta de fins ou funções que determinem os porquês dos homens. nos faltam selas para subir em um cavalo e partir sem rumo em fuga do destino. mentira. o que nos falta é coragem! vivemos para morrer? propósito há nessa fila de animais enfileirados nos abatedouros? pagamos promessas. cruzes que muitas vezes nos esmagam na vida cadeira de escritório, gravata apertada e esposa modelo. pagamos pecados. mais que sete. talvez setenta vezes sete. talvez pecar seja o sentido da vida. somos corroídos pelo pecado e o resto que nos sobrar é devolvido a quem nos pagar mais caro no leilão post-mortem. seja deus, o diabo ou os vermes da terra. talvez seja tudo uma viagem no elevador. simples, direta, fácil. esperamos que seja sempre assim. da maneira mais tediosa e segura possível. mas para nossa aflição, vez ou outra há desvios de percurso. uma porta que se abre antes. pessoas que entram sem pedir licença. um acidente que nos prende em algum lugar, e por mais que no fim, a gente saiba onde chegar, com a certeza de que se irá chegar, as perspectivas não se completam e o controle sobre nossa dívida se perde em números insuficientes. se um dia tivéssemos real dimensão do que nos espera, a consciência onisciente nos faria genuínos guardiões da melancolia. incertezas engarrafadas vendem muito, mas mil interrogações não valem uma exclamação no mercado de felicidade. aí é que a ilusão do amor combate este cinza singelo que deveria nos pincelar. a ilusão de uma tratativa que sara as cicatrizes da memória. a idéia de se perder entre os iguais amortece e afasta a realidade. entregar a alma ainda é a alternativa que se impõe. doar o viver, se doar, ir além da dor. cada palavra inexprimível cabe em seu exato preço na pedagogia do amor. cada dizer corresponde à maquinação perfeita que ergue a cortina que nos esconde de nós mesmos. o amor é a desesperada tentativa de sobrevivência. a razão última que precede a loucura. o resto é a resistência esporádica das ilusões. a amargura é lei, a desobediência vital, a felicidade é clandestina e a redenção, quase sempre, intangível. porque aqui não se vive, doutor, mas ainda se tenta.

t.s.siqueira

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