A placa sobre a mesa ainda estampava as letras garrafais douradas: DR. LEOPOLDO DE CASTRO MONTES. Doía creditar aquele como o seu último dia quarenta e dois anos depois de entrar pela primeira vez naquela sala. Os poucos fios de cabelo que lhe restavam pintavam branquejavam sua cabeça. As mãos rígidas e os braços violentados pela artrite já não lhe permitiam tocar o violino. Aos oitenta anos, era inapto para suas duas maiores paixões: a música e os tribunais.
O velho Castro Montes iria enfim se aposentar. Tanto a memória o traiu que já não podia mais seguir. Olhava desolado as caixas com seus livros, seu violino, seus pertences... Praticamente toda sua vida ali, espalhada pelo chão do escritório. Embalados para um adeus sem retorno. A primeira esposa morreu junto ao filho natimorto. Para a segunda, ele é que esteve morto toda a vida. Um divórcio redigido em mão própria.
No início, foi daqueles promissores advogados de sonho alto. "O céu é o limite." Nunca passou disso: uma promessa. Vieram as ofertas de dinheiro sujo, os acordos ilícitos, as propostas de trocas de favores e o Dr. Montes recuou. Condenou-se a décadas de reclusão longe, muito longe, do itinerário de sucesso que havia planejado um dia para si.
Manteve a vida modesta que os padres da eucaristia tanto lhe recomendavam. Era tido entre os colegas como o pavilhão moral da classe. Nunca souberam que a ética lhe valesse coisa alguma. Tinha medo. Qualquer risco sempre foi um preço alto demais para uma alma tão repleta de nulidades. Seu amparo eram os gritos magoados nas cordas do violino. Não foi amado pelas esposas, não teve filhos, os amigos eram mortos. Só lhe restou o velho violino que agora se negava a permitir seu desafino.
Manteve a vida modesta que os padres da eucaristia tanto lhe recomendavam. Era tido entre os colegas como o pavilhão moral da classe. Nunca souberam que a ética lhe valesse coisa alguma. Tinha medo. Qualquer risco sempre foi um preço alto demais para uma alma tão repleta de nulidades. Seu amparo eram os gritos magoados nas cordas do violino. Não foi amado pelas esposas, não teve filhos, os amigos eram mortos. Só lhe restou o velho violino que agora se negava a permitir seu desafino.
Levantou-se da cadeira e empilhou todas as caixas ao lado da porta. Destrancou a penúltima gaveta da mesa: recolheu uns papéis velhos e a Smith & Wesson que uma vez comprara para se proteger durante os anos da repressão. A S&W ainda tinha as seis balas que ele pôs em 68. 1968: almas cheias de sonhos, cabeças ferventes de idéias. Para ele, 1968 nunca houve. Sua utopia era gasta. Resignou-se por anos e acomodou-se, até que a rotina padrão foi destronada pelo tempo e o mundo lhe desabou sobre as costas.
O velho revólver não estava mais carregado e o velho homem já estava morto. Cinco tiros indefectíveis. Um no violino, um na placa de inscrições douradas sobre a mesa. Uma bala na fechadura do apartamento da segunda esposa e dois tiros cravados no peito de uma mulher que se dizia, aos risos, ex-viúva. Castro Montes reservou a última bala para a sua cabeça. Pagou a uma prostituta e foi a um motel. Matou-se durante o orgasmo. Após oitenta anos de frustração, morreu com a satisfação estampada na cara.
O velho revólver não estava mais carregado e o velho homem já estava morto. Cinco tiros indefectíveis. Um no violino, um na placa de inscrições douradas sobre a mesa. Uma bala na fechadura do apartamento da segunda esposa e dois tiros cravados no peito de uma mulher que se dizia, aos risos, ex-viúva. Castro Montes reservou a última bala para a sua cabeça. Pagou a uma prostituta e foi a um motel. Matou-se durante o orgasmo. Após oitenta anos de frustração, morreu com a satisfação estampada na cara.
T.S.Siqueira
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