Madrugada
O céu entorna anonimato
Sobre a noite que tombou seu véu
Poetas medíocres castigam seus dedos
Velhas sandias sussurram à escuridão seus segredos
Enquanto seus vizinhos do lado gemem baixinho
Dorme o sono dos justos o bom burguês
Na sua esquina, uma menor não entende francês
E o cliente procura outra no barzinho
Uma mãe sai de casa sem deixar rastro
Uma filha seduz o padrasto
Uma criança chora em uma casa vazia
Um avô tem o terceiro infarto
Outra mãe morre no parto
Outro filho para uma tia
Mulheres tristes velam seu marido morto
Um viúvo caminha pela casa absorto
O coveiro ronca sobre os jazigos
Gatos reviram lixeiras, cães uivam pra lua
No lixo, o jantar de um menino de rua
É partilhado com seus doze amigos
Alguns bêbados tropeçam em bandidos
Abatidos por outros bandidos
Na noite banal que sopra um beijo atrevido
E deixa a calamidade e o caos
Nos braços da alvorada.
Era uma vez madrugada.
T.S.Siqueira
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