sábado, 7 de fevereiro de 2015

alguma curva do caminho

passeio os olhos pelo teto como se esperasse ler acima de onde estou qualquer solução-janela aberta para outros horizontes. como se o mesmo teto, não fosse mais hora, menos hora, desabar sobre mim. deve ser a terceira vez em que eu guardo algum medo de deus.

a primeira, aos nove, ao ler o livro de apocalipse. tremia com o mistério das sete estrelas, sete castiçais, sete igrejas, sete selos. só anos depois viria a saber que sete era o número divino. teria todos os motivos pra duvidar.

aos onze, a segunda, foi também primeira. inaugurei sentir o cheiro das flores de um velório. qualquer crisântemo branco me repugna até hoje. eram os cabelos brancos da mãe do meu pai. o corpo embaixo da terra. era dia do meu aniversário.

aos vinte e dois, quando pergunto por deus ouço um silêncio sepulcral. grito e, à exceção do vento balançando as cortinas do quarto, nada mais me responde. não há medo maior que estar sozinho nesse mundo.

atônito, viro o pescoço de um lado para o outro como se tentasse mirar o quanto do que sou tem estado à deriva. no meu egoísmo encontro pouco lugar pra enterrar minha cabeça longe de mim. sei muito pouco o que os outros ouvem, o que os outros dançam, o que os outros amam. e mesmo sem essa presença diária, sem ter a pele perto da pele, tudo que é humano ainda me incomoda, me atordoa e me dói.

clico em várias coisas na esperança de que a tela do computador desvie a atenção. abro o facebook e ele me pergunta: no que você está pensando? ninguém morre aos vinte anos. um paralelepípedo entalado na garganta. a morte é feia. obscena. um nocaute filho-da puta a nos deixar desorientado. ninguém morre aos vinte anos. no auge da sua curvatura, no maior tamanho do seu sorriso, a vida se obriga a deixar de existir. ninguém morre aos vinte anos.

desço até o lobby pra acender um cigarro e os meninos do 302 estão numa rodinha de violão tentando impressionar a filha da síndica. alguém puxa "dezesseis" e eu canto baixinho com eles. "giz", "la nuova gioventú", "daniel na cova dos leões". os meninos são bons. e quando vem o coro de "somos tão jovens',  duas ou três lágrimas renitentes teimam em cair.

revejo em contornos a parcela divina que cada um traz nas suas intermitências. religião mesmo é o amor. mesmo sem remédio para um coração dilacerado. mesmo sem perdão para uma alma atrofiada. eu só escrevo para não morrer dentro de mim. não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

quem primeiro chegou foi a razão. antes do medo, da negação e do ódio, a razão. descascando os dias até chegar ao âmago. destrambelhar o íntimo. a tradução do desencanto feita sempre em frases curtas. das vírgulas, as reticências.

fui eu que entrei naquele bar apenas pra correr do silêncio. pesquei a sua tatuagem do leminski meio escondida pela blusa. derrubei meus óculos ao falar contigo. escrevia, apagava e reescrevia cada mensagem de texto no celular. eu que te amei já no décimo nono dia, na vigésima primeira hora, no segundo agudo da notável desaventura de um beijo que devorava o tempo.

não, nem tudo que é amargo é arrependimento. deixa que o coração é um incendiário a por em brasa a turmalina bruta do desejo. de repente, a razão nos desbota e desgosta. love is not a victory march, it's a cold and it's a broken hallelujah. a versão do buckley toca todos os dias em uma rádio am. como quem vai na esquina comprar o pão e não volta mais, o amor vai embora. acontece.

cortaram o pé de jabuticaba-azeda na frente aqui do prédio. não tem mais aquele punhado todo de fruta fazendo lama no meio da rua. você sempre dizia que tanta exuberância era desperdício. eu, sem discutir muito, pensava cá com meus botões se toda beleza, mesmo efêmera, não encontra seu sentido em apenas ser no instante. tinha uma certa graça no solado preto e visguento de todos os meus sapatos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

de tantas maneiras de deixar o tempo passar, as minhas escolhas são sempre as erradas. você sabe que eu nunca fiz nada do jeito certo. o diabo escreve o torto nas linhas mais certas. a minha única reação a qualquer coisa ainda é mandar ir se danar. na boca há um protocolo padrão de frases fodidas pelo álibi que a gente criou para esquecer de sonhar.

eu ainda vou sozinho ao cinema em sessões vazias. eu ainda ouço sinatra e waldick na mesma playlist. ainda levo uma caneta em qualquer lugar que eu vá. bebo o mesmo café com leite empelotado. acho que casablanca é superestimado e que caeiro é o melhor heterônimo. tenho as mesmas certezas, mas me faltam as velhas dúvidas recorrentes.

de falar bobagem até as três da manhã, discutir a origem de tudo, explicar as razões da minha impaciência com super-heróis ou argumentar que uísque vai bem com qualquer coisa no universo. nunca houve consenso de porra nenhuma entre a gente. talvez apenas o jeito amuado e arredio. ou talvez nos livros trocados. os erros nas dedicatórias são vícios, mas não as escolhas.

dia desses, na fila do supermercado, senti um cheiro seu. aquele xampu enjoativo que me fazia repetir a urgência e a beleza que tinham os seus cachos curtos. deixaram um pote cair no chão empesteando o ar todo. tão banal que ninguém mais naquela fila deu atenção. a exceção é a minha mania de colecionar detalhes.

ainda escrevo muito para que ninguém leia. há uma dobra da verdade em tudo aquilo que faço.
fumo descontroladamente, encho a cara e sou inconsequente. tem sido a minha resposta pra tudo. meu desleixo é minha marca. o que determina o ritmo dos meus passos. do meu verso. meu verbo.

alice, não há palavra que eu escreva que não seja de amor.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

em cada grão de areia mora um milagre
o micróbio insensato da felicidade assim quis
minúscula é a tradução dos encantamentos
a olho nu são invisíveis os operários do essencial desabrochado

é preciso ouvir as pedras e entrelaçar os cadarços da rotina
um tropeço que role a vida abaixo numa escada espiral
desvairada nos tombos providenciais da poesia

a felicidade, por sua vez, vive descalça
enterra os dedos na areia de beira de praia
mora um milagre na perene certeza do simples

t.s.siqueira
sempre sonhei vida em meio a secura
à margem do mundo, conservo bem a minha loucura
escrevo cartas amiúdes tratando de perplexidade e fé
há uma rosa desperta a nascer sob meu travesseiro
engolindo seco, se alimenta de distâncias e reticências.
girando ao redor do mesmo lugar onde agora sou
estar longe é o esforço de negar o querer
quando se quer a esperança de se achar mais perto
brotam inexplicáveis exclamações na sola do pé
tão gasto como os sapatos é o tempo
quanto mais se vive, tanto mais se morre
um epitáfio prescrito em todas as testas
ciência maior que o mistério não há
no interrogatório das horas, no relógio a oração
haverá alguém imune ao desatino de viver?

t.s.siqueira

sábado, 1 de novembro de 2014

tanto fez o que não era,
toda a vida a sua frente,
ávida de novos haveres,
livre de velhos pesares,
quis querer ser diferente,
distante de tudo que foi.
em rasgo riscado na pele,
a alma saltando-lhe fora,
tanto maltrato, foi embora,
sobrou pouco de poesia
insone nas rimas insanas,
sua exceção de utopias
de sempre se saber só,
e ser o que nunca quis,
a não saber o que se quer.

domingo, 28 de setembro de 2014

o poema não tem previsão de tempo.
chove sem forma, sem moda, estilo, maneiras
requebra em lama molhada, na terra batida
e assim regenera em todas as gentes um arco
que ilude quem sonha e os medos intimida
nos tímidos e incontáveis corações de beira
dos rios, de riso e pranto, prontos a desaguar
em tanta mágoa fermentada nos charcos,
em tanta água que corre sem certeza de chegar,
no que o peito, sem jeito, refeito desmonta
sem saber se o poema lhe será farol ou barco,
que no mar e no amar há o infinito na ponta.