quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

quem primeiro chegou foi a razão. antes do medo, da negação e do ódio, a razão. descascando os dias até chegar ao âmago. destrambelhar o íntimo. a tradução do desencanto feita sempre em frases curtas. das vírgulas, as reticências.

fui eu que entrei naquele bar apenas pra correr do silêncio. pesquei a sua tatuagem do leminski meio escondida pela blusa. derrubei meus óculos ao falar contigo. escrevia, apagava e reescrevia cada mensagem de texto no celular. eu que te amei já no décimo nono dia, na vigésima primeira hora, no segundo agudo da notável desaventura de um beijo que devorava o tempo.

não, nem tudo que é amargo é arrependimento. deixa que o coração é um incendiário a por em brasa a turmalina bruta do desejo. de repente, a razão nos desbota e desgosta. love is not a victory march, it's a cold and it's a broken hallelujah. a versão do buckley toca todos os dias em uma rádio am. como quem vai na esquina comprar o pão e não volta mais, o amor vai embora. acontece.

cortaram o pé de jabuticaba-azeda na frente aqui do prédio. não tem mais aquele punhado todo de fruta fazendo lama no meio da rua. você sempre dizia que tanta exuberância era desperdício. eu, sem discutir muito, pensava cá com meus botões se toda beleza, mesmo efêmera, não encontra seu sentido em apenas ser no instante. tinha uma certa graça no solado preto e visguento de todos os meus sapatos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário