quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

voltas

chegou em silêncio. receava que alguém a estranhasse ali. trinta e três anos que haviam rompido noivado e não mais se falaram. já na capital, soube que casou e teve filhos. ficou viúvo. casou novamente. morreu aos cinquenta e seis. ela, ao receber a notícia, meteu-se entre os brincos, pôs uma muda de roupa na bolsa e foi. depois dos cinquenta, só se volta a terra natal por casamento ou funeral.

não reconhecia a esposa enlutada. em verdade, reconheceu poucos no velório. ainda era bonito o amadeu. no centro da sala, deitado, sorria um sorriso meio torto. naquele instante, mesmo sem ser de sentimentalismos, arrependeu-se de ter mandado ao lixo todas suas cartas.

chorou um pouco. sentia que era pouco o direito de chorar por quem não via há décadas. logo saiu dali e sentou-se em uns degraus da praça em frente. uma banquinha de frutas lhe soprava um cheiro amarelo de saudade. desatava na cabeça coisa e gente que nem lembrava mais. que nem se alcança mais.

não era de entristecer, mas tinha algo de perplexidade nesse constatar da vida como irremediável. e se perguntava como alguém com vinte e poucos anos poderia decidir o que quer que fosse sobre si. como escolher a medida exata daquilo que só o futuro dirá? como pode alguém, em qualquer idade que fosse, porra, reclamar escolha, se a vida no fim é uma só. sem revisão, correção, refeitura.

lembrou-se de ter dito ao amadeu, naqueles idos, que amar é carregar o coração na boca e o cu na mão. que amor é pra se saber vivo. não morrer em vida. que aquela promessa calma, serena e estável lhe desmanchava. água brava de corredeira não desemboca em lagoa. não apetece.

ama-deu. e riu, com um pouco de culpa. talvez fosse bem isso. quisera que um dia tivesse compreendido. que não lhe atrelasse mágoa. quisera que fosse próspero, bem-querido, amado. quisera que lesse o rosa, naquele do "viver é um rasgar-se e remendar-se". porque às vezes é preciso abrir um ou dois buracos no peito, na alma, para ver o que se passa lá dentro.

contava as moedas, com um olho nas carambolas maduras ali perto, e ia dizendo ao celular:
- filha, pede pro teu pai me buscar na rodoviária. tô voltando hoje mesmo.

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