domingo, 9 de setembro de 2012

16/03/10

sou daqueles cegos que preferem a viseira da esperança
a encarar a macabra realidade
travestida impiedosamente em pobres crianças
com sorrisos em seus podres dentes
punhaladas renitentes
da previsível sorte que nos abaterá

estático, paro, reparo, escuto e vejo o mundo
assisto seu teatro admirável e nauseabundo
encapsulado em minha gaiola de covardia
encurralado neste meu gênero defeituoso
que em seu artifício tortuoso
detém a própria teimosia.

t.s.siqueira

sábado, 8 de setembro de 2012

.

Uma vez eu tive uma ilusão.
E não soube o que fazer.
Não soube o que fazer.
Com ela.
Não soube o que fazer.
E ela se foi.

domingo, 26 de agosto de 2012

desmundo

são portas que se fecham.
olhares que se vão.
a mil.

um exorcismo relampejado.
um destratar da criação.
amiúde.

estão dissolvidos no mar os paradoxos.
o ontem e o amanhã em separação.
tácita.

antes um pendor, agora equilíbrio.
não mais arguido na interrogação
taciturna.

é na sangria da violência interna.
guerra forjada no talhar imundo,
absurdo,

que do velho cria-se o novo
e tudo se transforma.

é ansiada (e dolorosa) a liberdade,
mas neste lugar há preço para tudo
desmundo

aqui há circunferências que desenham arestas
ciclos que encontram seu fatal fim.
desmundo

desmandos, desarmes, desastres
fecho a carne e escondo o rosto
outro alguém nascituro

desmundo

t.s.siqueira

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

You've got tombs in your in your eyes, but the songs
You punched are dreaming
Listen, they sing of love so sweet
When you gonna get yourself back on your feet?
Oh and love can be so sweet, love so sweet...

Joni Mitchell

sábado, 11 de agosto de 2012

meu rumo segue em um barco
ancorado em uma baía de ausências,
uma essência distante onde se afogam meus deslizes.

minha bandeira se prende a um arco
que no alto ostenta as agruras da amargura
e tremula vacilante minhas perversas cicatrizes.

minha vida naufraga em um charco,
vai a se debater no lodaçal de enganos
do tirano instante de mil memórias infelizes.

minhas mágoas cantam um pranto
onde um barco desenhado em lágrimas e giz
atravessa as tormentas de um desastrado oceano.

                                T.S.Siqueira

domingo, 5 de agosto de 2012

eu quase não falo,
eu quase não sei de nada,
sou como rês desgarrada nessa multidão boiada caminhando a esmo...

Lamento Sertanejo - Dominguinhos/Gilberto Gil

quarta-feira, 13 de junho de 2012

tudo ao mesmo tempo agora

Melancolia é coisa duvidosa. Não se sabe ainda se é vontade de futuro ou lamento de passado.
O que sei é que toda melodia me parece triste e meus olhos, subversivos, entregam, o que consinto, insisto, em não me entregar.

Falar de amor é tão vão e profundo. 
A gente sabe o que quer, a gente sabe o que ama, a gente sabe da vida, a gente só não sabe saber.
Talvez por isso seja tão mais fácil rimar amor com dor.
É tão difícil caminhar para frente quando a cabeça insiste em olhar para trás.
O novo te faz recuar até à decrepitude em que a coragem se enterra.

"Mas sabe lá, o que é morrer de sede em frente ao mar?"
E não pode ser. Não dá pra ser.
Sol e lua se sucedem, mas não se descobrem, não se percebem...
A vilania da natureza é fazer com que um persiga o outro durante toda a eternidade sem ao menos se tocarem.
Sem ao menos...

Os relógios giram, os refúgios acabam, as idéias avançam, os outros vão e eu permaneço aqui.
Os ventos mudam e eu, teimosamente, não.
Dançamos no mundo a música do medo.
Da fome ferina pelo outro.
Da farsa furiosa do fingir que ferro somos.
Até as cortinas revelarem o seu patético espetáculo.

E de quem tanto se espera, por esperar tempo demais, uma hora vai embora.
E todo aquele carinho contido, beijo clichê e sonho velado, escorrem pelo ralo da desilusão.

"I can't live with or without you..."

T.S.Siqueira