terça-feira, 5 de julho de 2011

Um vento que sopra de norte nenhum
Um vento que vai
Voa
E sai sem rumo algum
Carrega com ele
Meu coração

    T.S.Siqueira

Elogio ao Desvario

Bem aventurados os que amam
Pois sem eles
Quem divertiria os sábios?

     T.S.Siqueira

um amor em sete cores

Leila ardia. Não conseguia mais fazer qualquer coisa que fosse. Dedicava seus dias à uma adoração cega de uma paixão desmedida. A mãe já não sabia o que fazer. Os castigos já não funcionavam. Tampouco as severas surras aplicadas pelo pai. Mas Leila ainda ardia. As amigas passaram a ignorá-la. O pai levava e trazia a garota do colégio para casa, único passeio permitido à ela naqueles tempos. Mas a gaiola construída pelos pais não a prendia. E Leila ardia. Na rua, já era mal falada. Na escola, ninguém a cumprimentava. A madre superiora chamou-lhe para um sermão e pouco adiantava. Ainda Leila ardia. Em um descuido dos pais, um jantar de bodas, a casa vazia, as portas trancadas, propostas indecentes sussurradas nas janelas. Um leve descuido e Leila fugiu. A família, se reputação ainda tinha, não mais se refez. O pai acusou a mãe. A mãe cumpriu sentença: barbitúricos. O viúvo não vivia, de desgosto perecia. Em algum canto do mundo, com a amante, em amor Leila ardia.

                   T.S.Siqueira & L.Carvalho

Coração, desejo e sina

As duas mulheres andavam rapidamente pelo passeio público. O toc-toc dos tamancos diluía-se na sinfonia barulhenta da cidade. A mocinha, que deveria estar entre seus 7 e 8 anos, andava arrastada pela outra que parecia ser sua mãe, e fazia muxoxos de reprovação enquanto revistava a avenida com um olhar distraído.  A mãe, por sua vez, era uma quarentona impetuosa. Seu rosto, apesar de alquebrado, preservava ainda um pouco da beleza de sua juventude e mantinha ainda a aura de uma mulher inteligente.  Andava apressada, equilibrando os pacotes do supermercado e, com uma cara de funcionário público em dias de longas filas, franzia o cenho irritada com a filha.
Em frente ao parque da cidade, a menina estancou.
- Tô cansada, mãe. Quero sentar um pouquinho!
A mãe procurou por paciência, gastou a última reserva que lhe restava e disse:
- A gente já está perto de casa, filha. Vamos andando! Seu irmão está esperando a gente.
A garota já não ouvia. Seus olhos distraídos faiscavam e miravam um arbusto ali perto. A mãe resmungou novamente:
- Vamos, Alice!                                                                                                       
- Espera, mãe! Você não tá vendo?
- O quê, Alice? O quê, Alice? – uma das bochechas da mãe tremia no ritmo em que seu cérebro latejava.
- Olha mãe, um sapo!
- Mas o que é que tem os sapos? Chega, Alice! Vamos embora!
A mãe esticava a filha, dando-lhe puxões, até que, inesperadamente, a garota soltou-lhe as mãos, correu ao sapo, pregou-lhe um beijo e voltou desvairada com um sorriso na boca.
- Mas que porcaria, Alice? O que é que você estava esperando? Um príncipe? Você não acha que já passou do tempo de acreditar em conto de fadas?
A criança não demorou a chorar:
- Mãe, você não entende! Você nunca entende!
- Você que não entende, Alice! Você que não entende. – falava como se estivesse repetindo um mantra em que nem ela mesma acreditava – Não entende que foi-se embora o tempo de sonhar... – E algumas lágrimas desobedientes molhavam os seus óculos.
Na luz fria do anoitecer, as duas mulheres caminhavam, deixando para trás o rastro de suas lágrimas. Uma pulsando o peito de utopias, a outra no compasso lento da desilusão urbana.

                                                  T.S.Siqueira

domingo, 17 de abril de 2011

Guerra e Paz

O silêncio precede a combustão de vida
Ecoam gritos de uma batalha sofrida
Lágrimas sorridentes se misturam ao sangue

                                [Ansioso como nunca
                                 A angústia me consome]

As afiadas lâminas não cessam sua missão
O antigo sopro de vida recebe sua incisão
É o ingresso de um novo ciclo, de uma revanche

                                  [Incórporea como o nada
                                   A agonia me perturba]

Um interminável propósito de vingança
Ao longe, lancinantes gemidos de uma criança
Ao peito, um penitente coração pranteia

Ruídos no calabouço
Passos no corredor
Música em meus ouvidos

- Nasceu!

                 T.S.Siqueira

quinta-feira, 7 de abril de 2011

"Sem você, a emoção de hoje seria pele morta da emoção de outrora"
                                                                    Hipolito

In: Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Buarqueanas

Elena bateu a porta com força. Daquela vez, ele sabia, era pra não mais voltar. Juras em vão, flores no chão e declarações vazias. Elena não dançava no mesmo ritmo dele. Nunca dançou. Aquele seu jazz era demais pra um homem que só ouvia valsinhas.

O apartamento era sufocante, nas ruas as flores murchavam nos seus jardins de plástico. A tarde rodopiava os ponteiros do relógio. O céu vestia seu terno cinza e caía sobre os ombros do homem na sacada. E mesmo assim, ele pegou suas chaves e foi à praia. Rezava para que a brisa que lhe convidava ao delírio levasse toda sua alma embora e junto com ela roubasse os fragmentos pulsantes de Elena. Queria exorcizar-se.

Sentou-se em frente ao mar e de repente, aquela profusão de águas lhe respondeu. Uma onda estourou nos recifes e trouxe com ela um papel manchado e velho. Pra ele, uma distração recente e límpida. Um retrato em preto e branco onde duas figuras indistinguíveis formavam um casal. A qualidade era péssima, o estado decrépito, os anos eram muitos, mas eram semblantes felizes.

E como se a realidade cuspisse nos seus olhos, aquele escritor de meias palavras retornou à uma órbita chamada Elena. E dividia-se entre a fantasia da fotografia que emoldurava uma era feliz e a tristeza escandalizada que lhe arreganhava os dentes e ria com desprezo na sua cara. Elena gritava o seu nome presa naquele retrato. Não um grito de desespero, mas de rancor. Vestígios de uma vida vivida sem paixão.

O eco daquelas palavras antigas gritava aos seus ouvidos, e como se conseguisse enxergar-se naquele pedaço de papel, ele reconhecia sua própria imagem e ali, a mulher de rosto manchado era a sua Elena. Nesse universo indigesto, frias e anônimas memórias lhe recobravam a lucidez perdida naqueles dias que ele não viveu.

Aquele homem que era e não era ele parecia estampar um sorriso estático e insuspeito, comum aos que acreditam no amor, mas pressentem dias revoltos no futuro. E o longo paletó de outrora envolvia o vestido de uma Elena serena, um vulcão que não se sabe quando, não se sabe onde, entraria em erupção.

E tal qual pílulas de amargura, as promessas falsas daquele amor inexistente arranhavam o seu peito. Dizem que o amor é cego, mas o pior é aquele amor que não se vê.

Então ele percebeu que atrás daquele papel amassado e sujo havia algumas linhas rabiscadas. Procurando por respostas, ele se deparou com parcas palavras que um dia se perderam em um coração:

 “O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio. Amores serão sempre amáveis." 22/09/1956

Nas linhas da velha poesia que se renova, o vento que lhe presenteou aquela história soprou-a de volta ao lugar de onde veio, e os dedos cientes do destino que pedia para se completar, folgaram-se. Enquanto o mar mastigava novamente a fotografia, o homem sentia parte da sua história fluindo junto àquele retrato, e resignado, ele tinha a certeza de que em um futuro longínquo, as metades de sua vida teriam um reencontro.

                                                                  T.S.Siqueira