elaboro inseguranças propostas a nos prolongar para além do
mero pó. teorizo soluções no desconcerto. o descarte dos protótipos ideais da
felicidade. o deixar de estabelecer um templo sobre a própria vida. há que se
consentir que a vida é vivida no outro. sim, dentro dos clichês há espaço pra
esconder as nossas mesquinharias. respirar é um gesto de fé. alivia a escolha
entre o peso do dever e a leveza do devir.
durmo nas minhas hipóteses e acordo nas minhas antíteses. conjecturo
o aceite da hora de não ser. aprender a amar a própria sorte, mesmo que a sorte
nos sorria desamor. sei que resignação não é estandarte, mas quando vamos
aprender a se saber serenos? nem todo dia é dia de sol. a simples certeza de
que ele está lá nos basta.
chego do trabalho, uma chuva se anuncia. não tenho motivos
para correr. calço o andar arrastado habitual.
verto as vistas para baixo, vou olhando o chão à procura de algum pedaço
da minha fala. me deixo encharcar a roupa. sequer limpo os para-brisas dos meus
óculos. a chuva tem o dom de apagar todos os rastros. para que cada lágrima
deixe de ser tabu. para perceber na gente uma grandeza de garoa.
sigo andando. e como um velho, só sei ver o mundo como criança. me
pergunto o que é chuva para as formigas. onde moram suas tragédias? em cada
poça d’água imagino se há de provocar em olhos diminutos o mistério que a curva
do oceano me desperta. pequeno sou eu. sigo andando. tem sido a minha mentira. meu
jeito de procurar um deus que me mantém ainda a sua face desconhecida.
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