sábado, 12 de fevereiro de 2011

Carmen, de Bizet

O amor é filho da boêmia
E jamais se sujeitou as leis
Se tu me amas, eu não te amo
Se não me amas, eu te amo
Se eu te amo
Toma cuidado!

sad, sad, sad, i'm so sad...

Solitário
Cansado de seguir estrelas caídas
Seguir a vida
Seguir a trilha sem saída
Que desencaminha até o céu
Até o céu da boca

Dispenso lares
Vendo tristezas
Importo pesares
Assassino sonhos
E amaldiçoo esperanças.

Um menestrel de loucuras
Insanidades e medos
Passa tempo, passa mundo
Revoadas, passaredos
Só você não passa!

Audíveis sopros
Cantam ao sabor do vento
Encantamentos falhos
Que não reparam meu tormento.
E suplicam-me:
Para de chorar teu peito.

                               T.S.Siqueira

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Último Ato

A mulher no centro do palco mirava o público como quem procurava algo, e aqueles aplausos, todos aqueles aplausos que as paredes do teatro ecoavam, nos seus ouvidos eram zumbidos distantes. Beatriz acostumara-se o suficiente aos sorrisos da tragédia e às lágrimas da comédia para abstrair-se daquele lugar. Mas o que ela tinha visto mesmo?

Procurava entre os ternos e vestidos bem-cortados da platéia um indício de anormalidade que boiasse por aquele mar de trivialidades. Ora, afinal, o que lhe causara tanta angústia assim de repente? Como boa atriz, ela conhecia todas as emoções, todos os finais, felizes ou tristes. Provara da solidão, da felicidade, das lamentações e do amor no mesmo prato, no mesmo palco. Ela não iria sucumbir assim a qualquer coisa. Mas o quê? O que ela teria visto para afligir-se de tal maneira?

O pública esvaziava a sala e ia embora cochichando sobre aquela atriz esnobe, parada no meio do palco e indiferente aos espectadores que a ovacionavam. “No entanto, uma ótima atriz.” “Quanta vivacidade! Quanta veracidade!” “Você entendeu aquela pose estática no fim quando as cortinas caíram?”, “Será que faz parte da apresentação?”.

O velho teatro era o único que não se surpeendia. Escutava os cochichos dos homens e mulheres saindo e prendia um sorriso sardônico, ainda que um sorriso infeliz. O teatro sempre lamentava quando aquela cena se repetia, aquele desagradável momento em que ficção e realidade se misturavam, e as máscaras, as verdadeiras máscaras, caíam. Sentia pena de mais um que ensandecia por ali e acompanhava ressentido o dramático desfecho do último ato na história da vida de Beatriz.

No salão vazio, ela encarava fixamente as poltronas, como que as torturando e interrogando com apenas aquele olhar. E então ela descobriu-se sem saber o que fazia ali. O pânico era implacável: encenara toda a sua vida. O palco foi sua vida, e sua vida, por sua vez, era um palco. Era a hora de tirar toda a maquiagem, de desencarnar de vez da teatralidade e de cair no mundo real.  Mas tinha algo errado: o camarim também era um palco, a platéia era um palco, todo o teatro e todo o mundo revelava-se um palco.

Encarava-se no espelho, mas de repente não tinha rosto, não tinha identidade. E ante o desespero da sua nulidade, viu o seu rosto indo embora de sua memória, fugindo dali junto com o público, quando a peça acabou. Estava admiravelmente abandonada por si mesma. E mesmo aquele rosto, que ela chamava de seu, era mais uma das máscaras luciferinas manipuladas pelos desígnios da sina humana de nascer, crescer, procriar e morrer.

Sentia o choro entalado na garganta, mas desesperava-se, pois não tinha olhos que fossem seus para chorar. Sua consciência, sussurava ao seu ouvido a clamorosa pergunta que todo homem se exime de fazer: “To be or not to be? To be or not to be? That is the question”.

O velho teatro, gritando da sua prisão interior, respondeu-a com toda a sua humanidade: To be! Be atriz!

Com batom vermelho ou sangue do próprio punho, o invólucro humano de carnes e ossos escrevia repetidamente no espelho um trecho, apenas um trecho, do seu monólogo perpétuo, que perturbava a todos os outros seis bilhões de atores daquela companhia teatral

“Em que espelho ficou perdida a minha face?”

                                                                              T.S.Siqueira

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

já me matei faz muito tempo 
me matei quando o tempo era escasso 
e o que havia entre o tempo e o espaço 
era o de sempre 
nunca mesmo o sempre passo 

morrer faz bem à vista e ao baço 
melhora o ritmo do pulso 
e clareia a alma 

morrer de vez em quando 
é a única coisa que me acalma



                     Paulo Leminski

...Luiza!

...o teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza.
                     Tom Jobim

anseios

Caminho rumo a caminhos que me descaminhem
À insegurança de um frio na barriga,
Ao último fôlego de quem desmaia

Procuro o melaço de alegria
Em um beijo salgado de praia
Que oblitere o amargor da solitude.

Desejo o fogo e o frescor
De uma paixão de juventude
Que ressuscite obsoletos corações.

Quero esbarrar no véu de luz
Que descortina o breu das ilusões
E me encantar como quem canta sorrisos.

Quero me entregar sem disfarces,
Sem máscaras, conselhos ou avisos.
Viver o inexplicável, o inadmissível.

Procuro carinho nos olhos,
Afago nas mãos e ao peito alívio,
No livre sacrifício de amizade

Procuro quem queira ocupar-se
No emprego da felicidade
Há muito esquecida...

Procuro um amor que dure uma vida.

                              T.S.Siqueira

love is all "we" need

Dê-me tudo mesmo quando não resta mais nada
Deixe-me louco por você quando nada estiver bem
Faça o amanhã quando o hoje estiver chato
Que eu farei o mesmo

"Je t'aimerai qu'importe le prix"

                   Comme un fils - Corneille