a palavra é uma seta, disseram-me. uma vez lançada, corre
seu alvo e não retorna nunca ao seu lugar. contudo, setas tão furiosas são nos
seus propósitos que pensei mais gentil afinal tratar de palavras que voam. pois
que quantas delas sem acaso, sem caminho, não estão por aí a procurar onde
pousar? capturar seu sentido é veemência de caçar contextos e desviar dos
desentendidos.
pra mim, os significados vão se explicando melhor então nas
insignificâncias que pululam fora das acepções. no enquadramento dos retratos
há um mundo inteiro a se perder por fora da moldura. em função de compreender o
que existe no seu entorno, tome-se como centro, portanto, o que nunca esteve ali.
o vazio sempre nos fala. há sempre um mundo por dentro de mundos a se fixar nas
ausências. um livro de palavras não escritas que a gente esquece de lembrar.
ouvi dizer que quando uma perna é amputada, quem teve a
infelicidade de perdê-la, de uma certa forma, ainda a mantém. uma extensão de
si inexistente que ainda dói. como uma negação do que partiu, o vazio sempre
reclama. que a linguagem do que falta quase sempre é a dor. um misto de horror
e fascínio subsiste nessa ambiguidade do que está e não-está em nós. a medicina
decidiu chamar a isto um membro fantasma. o português lhe nomeou saudade.
há coisas que estão para além dos sentidos. simples. deus é
o verbo e inda assim sua voz jamais será ouvida. aquela cena final da trilogia
dos corleone. pacino gritando suplantado pelo silêncio. rasgando a lírica. e
quem ouve ali o intermezzo da ‘cavalleria rusticana’ guarda uma lágrima por um
vazio que não encontrou mais espaço dentro de si. é da tragédia italiana
desaguar em ópera ou vendetta. o que é atroz haverá mesmo de se rever em
beleza, em afronta, em depois.
lendo das coisas onde a poesia não é óbvia, um alemão me assevera
que comunicação é mesmo coisa improvável. doido é a gente que insiste. e como
dói esse insistir. este mundo que nos é ininterruptamente amputado. das palavras mal ditas,
negar a tristeza caudalosa que remanesce é tolice. mas da ausência legada, ao
menos o espaço para gestar dias mais bonitos. que o vazio é também potência de
se construir. que ‘é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar’.
t.s.siqueira
t.s.siqueira